UM ANJO NA MERUOCA
 

 

Quando garoto, morador da Vila Piccinin, periferia de Sampa, quase todos os dias por volta das 15 horas, aconteciam estrondos concomitantes que duravam alguns minutos. Os vidros das janelas tremiam, o chão tremia e eu, que nunca fui muito afeito a estrondos, tremia também.  Era uma pedreira que distava entre dois e três quilômetros de onde eu morava.  Vez ou outra acontecia de haver um estrondo, único, seco, um baque abafado de uma alfaia.  Cresci.  Mudei-me de região.  Achei que este som e a lembrança daquelas sensações ficariam bem guardadinhos nas memórias de minha infância e que jamais voltaria a vivenciá-los, mesmo porque as pedreiras não mais coexistem com os grandes centros.
Ledo engano.
Final de abril, abro minha caixa de mensagens e encontro nela um e-mail solicitando a confirmação de nossa participação no Festival de Inverno da Serra da Meruoca, no Ceará. Inverno no Ceará???.  Pois é, São Paulo tem Campos do Jordão,  o Rio tem Petrópolis, Pernambuco tem Garanhuns e o Ceará tem Meruoca.  Mais uma grande oportunidade que os festivais da canção propiciava para conhecermos um novo recanto brasileiro.  Embarcamos em 20 de maio de 2008, era uma terça-feira. Inesquecível, pois o Timão jogaria a primeira partida da semifinal da Copa do Brasil contra o Botafogo do Rio. O vôo atrasou cinqüenta minutos. Foi ótimo, pois houve tempo suficiente para que eu pudesse assistir inteiro, na imensa televisão da sala de espera do aeroporto, o primeiro tempo do jogo onde, apesar de massacrar o amedrontado Botafogo, o Coringão fez apenas um gol.  Fiquei sabendo do resultado final do jogo no hotel em que nos hospedamos em Fortaleza. Perguntei ao atendente do hotel.   Foi muito interessante o seu  risinho de canto de boca ao me comunicar o placar final da partida:  2 a 1.  Para o Botafogo.   A propósito, lá no Ceará, ele é torcedor do Fortaleza (que o Coringão despachou da Copa do Brasil, diga-se de passagem) e simpatizante do São Paulo.  Naquela noite de quarta-feira, quando jogaram Fluminense e São Paulo, nem preciso dizer para quem eu torci.   E “yeis”:  O Fluminense ganhou.   De manhã, o procurei e deliciosamente perguntei a ele se ele sabia o resultado do jogo....
Praça do Colégio Militar. Embarcamos em um ônibus fretado pela organização do evento para levar todo pessoal do festival para a Serra da Meruoca com direito a parada em Sobral, linda, linda... o povo no ônibus era só alegria.... há tempos que não me divertia tanto...  A cantoria de Edinho que dava aos ouvidos o tempo todo a impressão de que, junto da gente, estava a querida Maria Bethânia... aliás a Tieta também estava presente e em carne e osso... Mimi... Marildo... Rebeca... Santiago... Tiago (saudades)...   Em meio a isto tudo, alguém comentou que estávamos indo para o epicentro de vários tremores de terra que aconteceram recentemente no Ceará... 4.2 na Escala Richter... (ops,  brincadeiras tem limites)...  Era verdade.  Meruoca sediava proximidades com o epicentro dos abalos... Cinco horas depois de muitas risadas, chegamos.  Murmúrios da Natureza. Que coincidência?!?!?!.  Este é o nome da pousada onde os músicos foram instalados.   Esta história de epicentro e tremores de terra não combinava nada,  nada com o lugar.  Estávamos num paraíso serrano, na Meruoca, na Serra da Meruoca.   Fomos almoçar e em meio a uma mastigada e outra ouvi um estrondo seco que me remeteu imediatamente às minhas lembranças da infância na Vila Piccinin.  Tem pedreira em Meruoca? -  perguntei.  As Irmãs entreolharam-se (a pousada era administrada por freiras). Era terremoto, responderam.  E foi bem assim, rápido. Um rugido interrompido. Seco.  Se forem estes os abalos que acontecem por aqui, realmente não há razão para pânico. Precisavam presenciar o que eu passei quando morava perto daquela pedreira. Tranquilo, assim, certamente, vou tirar de letra, pensei.  Fomos para a festa.  Primeira noite. Curtimos o belo show com o MPB 4 e, depois, o festival. 
Tudo transcorreu dentro da normalidade esperada.  Na euforia e nas alturas em que os sons rolavam não haveria espaço para perceber nenhum tremor de terra ou estrondo.   No dia seguinte, segunda noite,  fizemos a nossa apresentação, assistimos shows culturais e outros mais dançantes...  Em função da agitação dos dias (viagem; caminhada; sarau) e das noites (!!!),  o sono nos pegou de jeito. Voltamos para a pousada, já de madrugada, antes de ouvirmos o anúncio das canções escolhidas para a final.  Na Murmúrios da Natureza,  além dos grilos e outros sons típicos da noite, também estavam lá, para quem quisesse ouvir, os nossos. Os murmúrios de Carlos e Ivânia. A bem da verdade eram quase gritos, pois o aquecedor solar pifou. Não aqueceu. Nosso banho teve que ser com água gelada.  Passamos correndo por debaixo do chuveiro. Corremos para debaixo das cobertas, apagamos as luzes e mal nos acomodamos em nossa cama e “VRRUMMM”...  um belo de um estrondo. Este foi um pouco mais prolongado que todos os anteriores. O chão tremeu... a cama tremeu... o telhado rangeu... e despencou reboco em mim, consequência de uma pequena rachadura que o tremor fez acontecer na parede... Senti medo.  De manhã contei para todo mundo, mas ninguém deu muita bola, a maioria estava entretida com a lista das músicas finalistas afixada na varanda. Também me esqueci do sismo, pelo menos naquele momento. Olhei a lista, estávamos lá.  A final foi muito bonita.  Todos se apresentaram muito bem.  Depois, o show,  impressionei-me com a performance de Alceu Valença.  Que carisma.  Como temos a aprender com este ícone da música brasileira!!!.    Após o show do Alceu, veio o esperado resultado do festival que, vale ressaltar, foi de altíssimo nível tanto em composições quanto em performances, uma banda de apoio excelente que vestiu as músicas com arranjos competentíssimos.  Vibramos muito. A Ivaninha foi agraciada com o prêmio de melhor intérprete e a nossa canção “De abecedê a bilboquê” levou o primeiro lugar no Festival de Inverno da  Serra da Meruoca.  Três da madruga, ainda comemorávamos felizes quando, de repente, caiu uma ficha: lembramos que dali a duas horas e meia teríamos que, impreterivelmente, viajar um percurso de mais ou menos cinco horas até o aeroporto de Fortaleza.  Nosso vôo de volta já estava marcado.   Voltamos para a Murmúrios da Natureza, na expectativa de que alguns dos produtores nos levassem àquela hora para lá.   Nada.  Perfeitamente explicável: O povo bebericou, dançou, cantou, comemorou e o que mais queriam era dormir até acordar.  Deitamos em nossa cama, meio que sem alternativas e quase conformados com o ônus que arcaríamos com a remarcação do vôo.  Cochilamos.   Lá no fundo, no subconsciente, ouço leves batidas na porta (no raso as batidas eram fortes).   O cochilo era a imaginação. O real era um sono profundo. Certamente não acordaríamos sem aquelas fortes batidas em nossa porta.  Meio sonolento imaginei que pudesse ter havido um tremor violento e teríamos que abandonar urgentemente a pousada... Fiz uma pergunta que eu mesmo não entendi...  tentei de novo...  Perguntei quem era.  Não responderam (ou responderam e eu não ouvi).  De qualquer forma abri a porta e então, o que vi:  Um Anjo.  Um anjo que veio para nos salvar. Acreditem era um anjo na  Meruoca:  Era um anjo que se chamava Tieta.  A nossa amiga Tieta.  Não a do agreste. Mas a da equipe de apoio aos músicos.  Solidária, abandonou a agitação dos shows para nos avisar que o serafim Arnóbio (diretor de palco... mais um dos recentes amigos) arranjou para nós uma carona, em uma van,  junto com a produção do grupo Rebellion (que astral. Maravilhosos). Era o limite do nosso horário.  A van já estava pronta para partir,  nos esperando à saída da pousada.  Tudo muito rápido. E aí foram abraços, abraços e mais abraços.  Bateu aquela pontinha de tristeza.  Aquela que bate forte na gente quando partimos levando boas lembranças de novos lugares, novos e lindos amigos, de sons e culturas que ampliam os nossos horizontes.  Nosso carinho para Pingo de Fortaleza, equipe e toda Meruoca que, para nós, ao invés de casa das moscas, será mais uma casa da música brasileira.   Preguiçoso, vou abrindo os olhos.  Sentindo toques suaves em meu ombro. Há uma voz pacientemente dizendo: - senhor, senhor: por favor, coloque o encosto do assento na vertical e afivele o cinto de segurança que vamos iniciar o pouso no Aeroporto Internacional de Guarulhos...

A propósito, ontem (28/05/08) foi o jogo de volta entre Corinthians e Botafogo.   Acho que o Brasil inteiro já sabe o resultado, né...? AQUI TEM UM BANDO DE LOCO...!



Carlos Gomes
 
              29/05/ 2008

 
 
 






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19 - Minha Primeira Vez

18 - Cantar é mover o dom...

17 - Quatro ponto sete no Festival de música da Bahiaarmani asics diesel gucci louisvuitton michaelkors mizuno nike okley rayban rolex vans

16 - "Meritocracia ou Jeitinhocracia"

15 - Não queremos outros Chicos e Caetanos

14 - Um hotel que perdia em estrelas mas ganhava em hospitalidade - a cloaca.

13 - Um hotel que perdia em estrelas mas ganhava em hospitalidade - divagações sobre o tema -

12 - Só peru morre na véspera -

11 - Nem tudo que reluz é ouro (última parte)

10 - Nem tudo que reluz é ouro (2ª parte)

9 - Nem tudo que reluz é ouro (1ª parte) -

8 - Salve o compositor popular (2ª parte)

7 - Salve o compositor popular (1ª parte) -

6 - O que é ser diferente ou igual em música? (2ª parte)

5 - O que é ser diferente ou igual em música? (1ª parte) -

4 - Nós e o Festival de Viña del Mar (2ª parte)

3 - Nós e o Festival de Viña del Mar (1ª parte) -

2 - O Susto (2ª parte)

1 - O Susto (1ª parte) -



 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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