Quatro ponto sete no Festival de Música da Bahia
22 de novembro de 2005. A máquina chegou aos quatro ponto sete. O dia começou bem escuro. Depois foi clareando até findar-se em uma noite lindamente iluminada. Celular desligado para não criar constrangimentos aos amigos que ligam e deixam na gente a sensação de que estão em dúvida entre dizer “parabéns” ou “cacete, mais um ano, né?”. Enfim, dentre as tantas coisas que foram acontecendo enquanto o dia escuro ia clareando e as sinistras e mal humoradas nuvens iam se alegrando, demonstrando uma forte tendência a clarearem-se e fundirem-se com o aqui-e-acolá-azulzinho-do-céu, chegou, como doce melodia, aos meus ouvidos a notícia de que duas de nossas canções haviam sido selecionadas para serem apresentadas no Festival de Música da Bahia.
E vamo-que-vamo. Caímos na estrada. De Boléia. Eu: Feliz. Já era 23 de novembro. Para mim ainda era a sequência do 22. Apesar da energia boa, não perdi o foco de que nestes eventos tudo pode acontecer, porém nada havia a perder. Teríamos uma boa ajuda de custo e, para reforçar: é novembro (lembra?) sequência do 22. Além do quê, sempre temos que carregar em mente a idéia de que os festivais trazem, explicitamente, a oportunidade de mostrar ao público, em geral, o mosaico que é a música brasileira e, para nós, particularmente, nos deixa mostrar qual é a cor que o nosso trabalho representa neste mosaico.
Apesar da euforia inicial, ficamos um pouco preocupados (pra variar) com a questão da lisura com a qual alguns festivais transcorrem, pois andorinhas, vira-e-mexe, nos contam sobre um ou outro jurado que se aproveita da confiança de organizadores. Aproveita-se de seu poder de falácia e influência sobre os demais (critério de indicação) ou, ainda, se aproveita de seu forte “conhecimento” de matemática (critério de pontuação) e faz acontecer um resultado contrário à vontade da maioria dos demais jurados (leia nossa crônica “Meritocracia ou “Jeitinhocracia”). Achei esta preocupação natural visto estarmos indo para um lugar bem longe de casa e berço de excelentes músicos, poetas e compositores que é a Bahia e, basicamente, em Vitória da Conquista (local da realização do evento). O fato de estes artistas serem muito bons e por demais conhecidos, poderia, na minha opinião, gerar um certo desconforto aos concorrentes de outras localidades dependendo, e isto é certo, da “xenofobia” de um ou outro jurado. Seja ele de qualquer naturalidade. A experiência destes anos já demonstrou que, um jurado “xenófobo”, por capricho ou mesmo por falta de caráter, acaba “melando” muitos resultados de festivais em detrimento da boa fé da organização que julgou, quando o escolheu, estar escolhendo o melhor para aquele momento. Azar o dele. Acredito que, QUANDO A ORGANIZAÇÃO NÃO É CONIVENTE, nunca mais o dito cujo será convidado.
Em Conquista, nos sentimos em casa. Um clima muito parecido com o que deixamos em Sampa. Parecia de encomenda. Bom astral. Fomos conhecer o teatro do Centro de Cultura. As energias espocando no ar. Reencontramos velhos amigos. Os trabalhos maravilhosos, em madeira, do mestre Dão Barros. A surpresa: O Papalo já é vovô (e já faz uma cara! Já, já, bisavô. É Mole? Vô Papá-lo). Como é de praxe, fomos dar o ar da graça aos organizadores. Após uma rápida conversa, ficamos muito contentes por todos os participantes, pois nos foi dada uma noção de como transcorreria o julgamento das canções no festival. Os critérios de avaliação seriam por notas onde seriam DESCONSIDERADAS UMA MENOR E UMA MAIOR NOTA. Não é fantástico? Eliminou-se, na base, a “JEITINHOCRACIA”. Pra quê consenso melhor do que este, não é mesmo? Evitou-se, assim, a falácia, o jogo de influência e a nota baixa que contraria a maioria. Neste ponto, um aparte: Num determinado festival em que participei do júri, houve um jurado que, dentre os quesitos de avaliação, deu nota 9, na eliminatória, para a letra de uma canção (ele, o jurado, não tinha nada contra a música ir para a final). Na final, este mesmo jurado, além de baixar substancialmente as suas notas, nos demais quesitos, deu, para a canção em questão, no quesito letra, nota 5 (era a nota mínima). Em detrimento das notas e da vontade dos demais jurados, pois, para os outros 4 jurados esta seria a canção que ficaria em primeiro lugar. Resultado: Esta canção, muito bem composta, nem ficou entre as três premiadas. Só para realçar: A LETRA da canção, na final, ERA A MESMA da eliminatória com tudo que tem direito em pontuação e acentuação. Acredite se quiser. Se este jurado tomou esta atitude por má fé ou não, não importa muito. O que importa é que este jurado contrariou a vontade dos demais.
Com o critério que tínhamos acabado de saber que a organização adotou para o evento, sentimos que os mesmos estavam executando uma fórmula que faria com que fosse respeitado o desejo da maioria e, diretamente, faria prevalecer o consenso, sem as desnecessárias discussões e opiniões pessoais deste ou daquele jurado acerca dos participantes. E todos os concorrentes estariam a salvo de manipulações.
Passamos o som. Impecável. Fomos conhecer um pouquinho das imediações. Meu maior hobby, naquele horário (mais ou menos 14h) é a gastronomia. Conhecemos o Palhoça. Restaurante aconchegante. Pratos deliciosos. Atendimento 10. Uma sala pra “não fumantes” (cheia) e outra para “fumantes” (vazia). Pedimos uma picanha, um vinho... tudo maravilhoso (lembrem-se que ainda é a semana de 22 de novembro – meu aniversário, pô!).
Foram três noites de festival: 24, 25 e 26 de novembro. Noites aquecidas pela energia de todos os envolvidos no evento. Nos apresentamos na primeira noite com o público lotando o teatro. A recepção para todas as 12 músicas desta eliminatória foi a mais calorosa possível e os artistas retribuíram este carinho com apresentações impecáveis e emocionais. E não poderia ser diferente, pois o tratamento que recebíamos nos camarins era “very vip”, com direito a entrevistas e muita descontração. São bem poucos os festivais que disponibilizam um camarim para os participantes (tínhamos dois, enormes) e com comes e bebes a vontade. A minha música “Villa-Lobos, a canção” classificou-se para a final e esta classificação, para mim, teve uma emoção a mais, apesar dos tantos festivais que participei... dá para entender, né?... aniversário, festival, Vitória da Conquista...
Aí veio a segunda noite que, para minha surpresa, foi mais caliente, ainda. Público vibrante. Teatro mais do que lotado. Pessoas sentadas nas escadas, em pé. Participativos. Aplaudindo muito cada canção. Tentando cantar junto com as apresentações. Tudo e todos muito felizes (e ainda tem neguinho que diz que festival não é viável). A canção: “Casulo na Moldura” numa interpretação inspiradíssima da Ivânia, também, muito aplaudida, classificou-se para a final do dia 26 (sentiu, né?... ainda semana de 22!).
Como tudo que é bom dura pouco, chegou o dia da grande final. Desde manhãzinha grudou em nós a tensão natural de uma final. Café da manhã bem levezinho. Por quê? Podem ter a certeza que não foi para ser light não. Foi, antes, para deixar espaço para um belo de um almoço no Palhoça, regado a vinho da casa que, principalmente pelo dia, pela semana, pela final, teve um sabor especialíssimo e tranquilizador.
E foi assim, transmitido pela televisão ao vivo, para quase toda a Bahia. Com muitas entrevistas. Camarim bem servido de frutas, salgados e refrigerantes. Teatro completamente lotado. Muitas pessoas em pé. Vibrações a mil. Começam as apresentações. Todas as canções, lindas. Cada artista à sua maneira retribuindo o carinho do público. 11ª. Canção, Casulo na Moldura, interpretada com uma emoção rara pela Ivânia Catarina, contagiante. No refrão, o público canta junto (há emoção maior?) e os compassos finais mal conseguíamos ouvi-los... lindo... 26 de novembro (para mim ainda 22... o dia mais comprido de 2005). Findas as apresentações, enquanto aguardávamos o resultado, nosso amigo Alisson Menezes nos agracia com um pocket... a ansiedade é geral... Chega o resultado: A canção Casulo na Moldura, interpretada lindamente pela Ivânia, é votada para o primeiro lugar... o público em pé, cantando o refrão. Aplaudindo.
Eu só ouvindo a alegria. A minha e a deles. Do público. Que ainda aplaudia e, tenho certeza, que este aplauso, através da gente, era extensivo a todos os músicos, compositores intérpretes e, porquê não? Ao próprio público. Aplausos que eram extensivos a toda estrutura organizacional do evento que demonstrou carinho e respeito com todos os que se envolveram com ele. Seja trabalhando, seja cantando, assistindo ou julgando.
Ufa! Que 22 de novembro extenso. Fantástico. Para mim, será daqueles dias que são para sempre. Daqueles dias que, passado o tempo que for, deitamos a cabeça em nosso travesseiro e o vivemos, vivemos e vivemos, até os nossos últimos dias.O Festival de Música da Bahia é organizado sob o ícone da UESB (Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia) através da sua Fundação Cultural e foi idealizado pelos artistas, Carlos Moreno (cantor e compositor), Dirlei Bomfim (poeta), Chiquinho Luz (músico) e, o homem mais severo na direção de palco, o querido Paulo Mascena (produtor musical). Queria deixar registrado que, na minha opinião, todo este sucesso não aconteceria, caso esses moços não tivessem uma base composta por pessoas que vestiram realmente a camiseta do evento (aliás, cadê a minha camiseta?), a saber: Paulo Sérgio, Edimilson, Kárin, Rafael, Sabiá, Elton, Assis, Beda, Galalau, Patrícia, Dinda, Sapão (o homem dos cabos!!!), Kathielly (que não deixou faltar laranjas, dentre as tantas outras guloseimas do camarim), Bazé, Léo, Beto, Luciano e o Fabinho Santana (que nos deu a honra de sua participação aos teclados em nossa canção) e os que apoiaram o projeto em credibilidade, o Sr. Reitor Abel Rebouças e Vice-Reitora Jussara Maria.
Fica aqui o nosso beijo no coração de todos e que o Festival da UESB tenha vida longa e a merecida divulgação pelo País para que possa figurar no grupo de festivais que sejam modelos para muitos eventos.
Carlos Gomes
compositor
Dezembro de 2005FICHA TÉCNICA DO FESTIVAL DE MÚSICA DA BAHIA
FESTIVAL DE MÚSICA DA BAHIA - III Festival Uesb de Música - edição nacional*
Ficha Técnica: Coordenação Geral - Prof. Paulo Sérgio (Pró-Reitor) PROEx. Coordenação Executiva: Carlos Moreno Produção Executiva: Chico Luz, Dirlêi Bonfim e Paulo Mascena. Coordenação Musical: Chico Luz Direção de Palco: Paulo Mascena Idealização/Autoral: Dirlêi Bonfim, Chico Luz, Carlos Moreno e Paulo Mascena. Cenografia: Edimilson Santana & Equipe Assistente de Produção: Kathielly, Kárin(Camarins) Assistente de Produção: Sapão (Palco) Assistente Artes Gráficas: Rafael Fotografia: Sabiá Secretárias: Patrícia e Dinda Apresentação: Elton Beker Sonorização: Assis Produções - Beda & Equipe Iluminação: Galalau Músicos Banda de Apoio: Bazé (Percussão), Fábio (Teclados), Beto Batera(Bateria) Luciano PP (Baixo), Léo Brasileiro (Violões/Guitarras)
Para ler as crônicas anteriores, clique nos links abaixo
16 - "Meritocracia ou Jeitinhocracia"
15 - Não queremos outros Chicos e Caetanos
14 - Um hotel que perdia em estrelas mas ganhava em hospitalidade - a cloaca.
13 - Um hotel que perdia em estrelas mas ganhava em hospitalidade - divagações sobre o tema -
12 - Só peru morre na véspera -
11 - Nem tudo que reluz é ouro (última parte)
10 - Nem tudo que reluz é ouro (2ª parte)
9 - Nem tudo que reluz é ouro (1ª parte) -
8 - Salve o compositor popular (2ª parte)
7 - Salve o compositor popular (1ª parte) -
6 - O que é ser diferente ou igual em música? (2ª parte)
5 - O que é ser diferente ou igual em música? (1ª parte) -
4 - Nós e o Festival de Viña del Mar (2ª parte)
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