CANTAR É MOVER O DOM...
 

Recebo inúmeros e-mails de pessoas que acompanham o meu trabalho, seja pelo site, pelos shows e/ou  pelos festivais.  Estas pessoas têm sugerido que, além de abordarmos a questão da composição, abordemos, também, a questão do canto. Outros, ainda, me param para perguntar como eu cuido da minha voz, com quem estudei, que exercícios faço de aquecimento. Em atenção a estas sugestões e questionamentos é que  resolvi escrever essa crônica. Deixo registrado que este bate-papo refletirá tão somente a minha opinião pessoal que tem por base a minha experiência profissional musical, além dos meus estudos  e observações.

A motivação para estudar canto, surgiu numa época em que eu era muito jovem  e tinha uma grande responsabilidade nas mãos: trabalhava com jingles, em vários estúdios, e precisava gravar várias músicas num curto espaço de tempo. Um desafio e tanto. Até hoje agradeço  aos profissionais que confiaram a mim tal missão. Foi desta forma que obtive a chance de aprender, e muito, logo no início de minha carreira.  Estava ávida por isso. Essa foi uma lição muito bacana: a da motivação. Sem ela, eu certamente não teria  conseguido aplicar nada do que meus professores me ensinaram.  Tive a sorte de contar com bons professores e pude absorver deles muitas coisas que utilizo até hoje, como os exercícios de aquecimento, a busca por  minha própria sensibilidade sobre as músicas, o melhor conhecimento da minha fisiologia vocal e corporal e, conseqüentemente, melhores cuidados com esta parte também.

Fazendo uma análise mais cuidadosa, percebo que meu canto, em toda a minha experiência profissional, esteve a serviço da composição, pois tenho a sorte de contar com alguém que compõe músicas especificamente para minha voz, o que se configura como uma grande responsabilidade, pois sou  eu a dar a primeira versão para a música. Isso exige de mim um profundo mergulho nas idéias melódicas do compositor e um esforço no sentido de não cair em clichês interpretativos que tornarão a música apenas mais uma música. Esse trabalho pode durar meses, pois há um tempo para amadurecer a interpretação, dominar os momentos da respiração, da colocação da voz, do tempo possível para explorar, mais ou menos, uma determinada nota dentro do tempo que o compasso caminha, sem perder o ritmo, a cadência, enfim, o perfeito entendimento da música. Vejam vocês que apenas por esses dias, por exemplo, me atrevi a cantar em público uma música que há muito eu vinha laboratoriando, sem colocá-la em shows ou festivais e, ainda assim, senti que havia algo a explorar, algo que os elementais do som ainda não haviam me revelado. E este processo acontece com todas as músicas que canto. É claro que há outros cantores que têm seus próprios métodos para explorar o máximo de uma melodia ao aprender a cantar uma canção. Este que citei é o meu. Às vezes, dependendo de prazos e circunstâncias, acabo atropelando este processo. Mas esta já é outra história.

Além destas coisas que acabei de colocar acima, eu diria, também, que ser cantor é ser parceiro do autor.  Tão parceiro a ponto de sentir-se à vontade para mudar uma nota aqui, outra acolá.  Com o devido respeito, é claro.  Acredito mesmo que é um lance muito legal este de ter começado minha carreira cantando composições inéditas pois assim não  sofri a interferência de trabalhos já oriundos de releituras e aprendi, assim, a conhecer e explorar mais corajosamente as possibilidades de minha voz e, conseqüentemente, a desenvolver o meu estilo. Releituras, no meu ponto de vista e salvando-se exceções, podem vir a prejudicar o entendimento do que se encontra nas nuances do desenho de uma melodia podendo levá-lo a um lugar muito próximo do que chamam de “cover”.    Por isso,  tenho um grande carinho e respeito por aqueles cantores que conseguem fazer, de algumas canções, releituras interpretativas magníficas, sem o apelo desastroso do ribombar dos tambores.  Se houver cumplicidade entre o crescimento melódico interpretativo e o ribombar dos timbales... aí sim: mataram a pau. Nota 10. Mas ainda estou para ver um trabalho que cresça em ritmo sem perder na melodia.

Finalizando com o óbvio para os iniciados, digo que o cantor ter que estar sempre feliz com o que está cantando, com a sua música. Tem que estar sempre cantando muito. Vivenciando prazeirosamente seu dom.  Tem que estar movendo o seu dom e compartilhando-o  com outras pessoas. Essa lição do prazer, talvez a mais importante,  quem me ensinou, sem querer e na sua ingenuidade,  logo que eu nasci, foi o meu  pai, que, talvez,  por não ter sido músico profissional, sofria muito quando ficava muitos dias longe de sua violinha. Longe de sua emoção como cantor.  Quando soltava sua voz, saltava. Sentia-se imerso na alegria que inundava a sua alma. E a nossa.   Sentia, naquele momento, que ele estava completo. E nós que o víamos, também.   Movia-se a roda da vida, cumpria-se sua missão, sua vocação, sua sina, seu dom.

Até breve.


Ivânia Catarina
 
               Março de 2006

 
 
 






Para ler as crônicas anteriores, clique nos links abaixo
 

17 - Quatro ponto sete no Festival de música da Bahia

16 - "Meritocracia ou Jeitinhocracia"

15 - Não queremos outros Chicos e Caetanos

14 - Um hotel que perdia em estrelas mas ganhava em hospitalidade - a cloaca.

13 - Um hotel que perdia em estrelas mas ganhava em hospitalidade - divagações sobre o tema -

12 - Só peru morre na véspera -

11 - Nem tudo que reluz é ouro (última parte)

10 - Nem tudo que reluz é ouro (2ª parte)

9 - Nem tudo que reluz é ouro (1ª parte) -

8 - Salve o compositor popular (2ª parte)

7 - Salve o compositor popular (1ª parte) -

6 - O que é ser diferente ou igual em música? (2ª parte)

5 - O que é ser diferente ou igual em música? (1ª parte) -

4 - Nós e o Festival de Viña del Mar (2ª parte)

3 - Nós e o Festival de Viña del Mar (1ª parte) -

2 - O Susto (2ª parte)

1 - O Susto (1ª parte) -