NÓS E O FESTIVAL DE VIÑA DEL MAR (2ª parte)
Depois de matar a saudade da língua com os nossos amigos brasileiros, nos pusemos a comentar as diferenças de costumes entre os dois países, etc. Chegou a nossa vez de passar o som.
Fomos informados cerca de dois meses antes do festival de que lá havia uma orquestra, maestro, etc. Ocorre que, numa certa ocasião, se não me engano, em 1996, participando de um festival no estado de São Paulo, sugeriram, insistiram, aceitamos e não formos muitos felizes em termos feito a apresentação da nossa canção (Marialice) com a banda do festival. Imaginem um choro-canção com baixo, bateria, teclado, sax tenor e violão. Até daria pra pensar em encarar. Mas, somando-se a isto uma dose de “vamo-que-vamo”, nada de arranjo, nada de direção e, menos ainda, de ensaio... Até hoje pedimos desculpas aos pandeiros, flautas e cavaquinhos. Para que vocês tenham uma pequena idéia do que rolou é só pensar numa feijoada com crustáceo (numa próxima oportunidade vamos contar isto com mais detalhes, foi tudo muito chato, mas valeu a experiência). Voltando à orquestra de Viña: Como gato escaldado tem medo de água fria, pensamos na dificuldade para acompanhamento da nossa música, visto a cumplicidade ser responsável por 55% da sua mensagem. A canção flui num rubato, quase ad libitum. Resolvemos não arriscar.
Foi com dor no coração que dissemos à organização que não nos aprazia usar a orquestra. E mais: gostaríamos de apresentar a música somente com violão e voz. Sofremos muita pressão para que mudássemos de idéia (igualzinho ao festival que mencionamos ainda a pouco) e confesso que quase fraquejamos, mas o bom senso prevaleceu. A organização do festival não entendia o porquê da teimosia e, na hora da passagem do som, ainda pedimos que o Carlos ficasse no palco, ao meu lado para apresentar a música (como já frisei nesta canção há muita cumplicidade). Lá, músico não pode ficar no palco durante a apresentação, somente o intérprete. Depois de muita discussão a organização do festival resolveu ceder. Diretores de palco a postos. Todos com medo de que viéssemos a diminuir o glamour do festival. Prontos para dizer: corta, corta.... Para alegria geral, após à passagem de som, vieram muitas felicitações à música, à coragem (afinal iríamos tocar para quase 50 mil pessoas, fora os 27 países que compraram direito de transmissão) etc. Apenas um probleminha: como o Carlos havia recém criado um interlúdio, a música aumentou o seu tempo em 20 segundos. Eles perceberam (tudo lá é cronometrado). Explicaram os porquês e pediram que procurássemos encurtá-la um pouco, pois o tempo da canção não poderia exceder a 3 minutos e meio de duração (isto só por questões televisivas). Ensaiamos muito, o resto da tarde, para poder mudar o nosso “pit” sem mudar a importância das notas e tampouco a energia. Conseguimos diminuir o tempo em 20 segundos sem perder nenhum momento mágico da canção.
Chegada a noite, nos preparamos para nossa primeira apresentação (no total de quatro para passar à final) e ficamos no saguão do hotel esperando a van que nos levaria à Quinta Vergara, local do festival. Ali ficamos conhecendo alguns dos outros concorrentes. Um deles, um chileno que concorreria na categoria folclórica e que apresentaria uma música muito interessante, arranjo bem andino, que foi a vencedora na categoria folclórica. Ficamos sabendo depois que era a sétima ou oitava vez que ele ganhava o festival. Não era para menos, o trabalho dele era muito lindo. Conhecemos também Marco Morano e seu empresário, italianos, que falavam portuliano (Brassiil, Brassiil) gente muito divertida. Concorriam no festival com a música “La Gente Che si sbatte”, bem pop, na categoria internacional. Yolanda Rayo, colombiana simpatissísima e o compositor Victoriano Valencia, a canção era “Nuevo Dia”, bem caribenha. Concorria, também, na categoria internacional Raly Barrionuevo, argentino muito educado, que interpretaria “Ayer te vi” de Victor Heredia, uma música romântica e sensível.
Festival tem uma magia que só participando é que a gente sabe. A vontade de dar o nosso melhor é o que nos impulsiona sempre. Ali essa vontade era ainda maior, por isso o nervosismo poderia atrapalhar. Éramos os únicos representantes do Brasil e isso colocava em nossas mãos uma grande responsabilidade. Ainda mais um ano depois que a Xuxa não foi muito bem recebida por lá, creio que foi até vaiada (chato, né?!). Graças a Deus, estávamos bem espiritualmente e isto se refletiu no palco. Demos o nosso recado de maneira tranqüila e o público nos agradeceu já gritando: Gaviota! Gaviota! Foi lindo! Cecília Bolocco, ex-miss chilena, na época noiva de Carlos Meném, ex-presidente argentino, apresentava o evento. Lembro-me de que quando nos foi entregue o prêmio, não se conteve de alegria e veio me dar um abraço dizendo: “Eu sabia! Eu sabia!”
Nos dias subseqüentes sair às ruas de Viña sem ser abordado por pessoas querendo fotos ou autógrafos foi muito difícil. Como nós não tínhamos guarda-costas, segurança, etc o Carlos Gomes recém iniciava no Chile a sua carreira de meu segurança pessoal (nem preciso falar que eu o demiti deste cargo cinco minutos depois. Totalmente incompetente para este cargo, recomendei que ele continuasse compondo e tocando que, certamente, renderia mais frutos). De qualquer forma, por esse mínimo de tempo, ele acabou fazendo um pouco esse papel. Nos divertimos muito com isso.
Ficar 10 dias por lá foi ótimo, mas a gente vai sentindo uma falta de ver o céu azul desse nosso Brasilzão que vocês nem fazem idéia. Então foi com muita alegria que voltamos para cá e quando aqui chegamos sentimos que tínhamos deixado um pedaço nosso por lá. Até hoje ainda recebemos visitas no site e e.mails carinhosos.
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