O QUE É SER DIFERENTE OU IGUAL EM MÚSICA?

(1ª parte)





Li, há poucos dias, o livro "Prepare o seu Coração" (Solano Ribeiro).   Este livro conta a  trajetória artística do autor, o seu desenvolvimento profissional como homem das comunicações e a história dos festivais que foram transmitidos pela televisão.   Achei a leitura muito fluente e com um poder especial de nos emocionar como se fosse um romance, um conto de “ficção” a nos envolver em seus melindres, com direito a suspense e com momentos hilários e caprichosos de seus personagens, nos transportando para a época dos acontecimentos.

O livro discorre nesta temática mostrando para nós como é que ela, a Televisão, influenciou e influencia a vida de qualquer ser humano desde seu surgimento.  Arriscaria a dizer que a sua influência atinge até a vida de alguns animais – ah, se eles falassem!!!.   Neste nosso papo vou me referir à minha impressão sobre a sua influência tão somente entre nós, Brasileiros.

Esta influência, realmente, sempre me interessou bastante. Tanto que eu compus uma letra intitulada Televisão (que o Carlos Gomes musicou e arranjou para o meu novo disco “Ivânia Catarina” com todo um mosaico rítmico que referencia o maracatu de  Pernambuco, a capoeira da Bahia e o carnaval do Rio de Janeiro, com a sanfona do Oswaldinho, entremeando, nos interlúdios, com intenções eruditas e um “swing” de forró usando o tradicional mixolídio, muito próprio para o gênero – mais um dos experimentos do Carlinhos!!!) e a compus justamente para falar deste poder da telinha de conduzir o mundo (dê uma conferidinha no CD, vale a pena).

Nada que vou dizer é novo, mas me sinto impulsionada a fazer um registro de meus pensamentos a respeito deste poder da mídia tal a sua importância e interferência na minha vida profissional.   Não vivi a época dos grandes festivais televisivos. O que sei é fruto do que nos contam os livros de Solano Ribeiro, Zuza Homem de Mello, Nelson Motta e de alguns outros pesquisadores que relataram suas experiências.

Sinto que nessa época havia uma busca intensa por originalidade associada com qualidade, com  inserções de novos elementos na roupagem das melodias que, além de ricas, caminhavam juntas com letras que abrangiam temas diversificados. Havia letras simples, mas também havia letras com conteúdos mais significativos.   Ouvindo o CD que acompanha um dos livros admirei o quão novos eram os arranjos, fosse pela inserção da guitarra numa linha mais vanguardista, fosse pela queixada de burro numa linha mais regional ou fosse pela utilização de porcos e galinhas nos arranjos de Hermeto Paschoal numa linha bem experimental.  Houve também a consciente quebra de paradigmas numa tentativa ou de ser original ou, no que eu mais aposto:   explorar os infinitos recursos que a música, em seu conceito mais singelo, propiciava e propiciará sempre, bastando apenas dar liberdade para quem a cria.  Era, pelo que eu pude sentir, um-botar-pra-fora toda a criatividade brasileiríssima dos construtores daquelas obras, que eu acredito, junto a outras mais contemporâneas, serão sempre as músicas brasileiras mais atuais de toda a história que já foi e que está por vir. Ufa!!!

Os tempos são outros. Hoje sinto que somos diuturnamente massacrados, pela programação da Televisão, do Rádio e por Blá Blá Bla Blá Blás de alguns que possuem uma certa regalia nos meios de comunicação e que além de segregativos “se acham” formadores-de-opinião.  Sinto que sofremos com as propagandas subliminadas que, no seu ocultismo, se empenha em pregar-a-não-diferença, o não-original.    O menos atento “dança”.  Na minha impressão se evidencia cada vez mais que querem nos compelir a buscar fórmulas de sucesso instantâneo.  Dizem:  - faça este  “sca”  na guitarra que é igual ao do grupo tal; ou: -faça esta levada no “tantan” que, assim, é igual ao conjunto tal;  ou:  - fulano ou cicrano deveria tocar ou cantar mais assim ou mais assado....  É como se  as pessoas tivessem que ter uma uniformização de pensamentos, de idéias, de ações e rebolados coreografados.    No Brasil inteiro todo mundo dançando igual (já vi isto acontecendo de norte a sul).   Vocês se lembram da célebre frase de Nelson Rodrigues a respeito da unanimidade???    Então.  Agora, fechem os ouvidos, digo, os olhos e imaginem isto tudo se refletindo, de maneira intensa, em todo mundo musical.

Pois é, o que mais temos visto são Pessoas ou Grupos empresariais buscando referências para categorizar, rotular e tentar vender seus “produtos musicais”.  Até aí, ótimo.  Música e mercado tem que caminhar juntos. Todo mundo precisa comer, inclusive o artista.   E, atentem para isto, brasilidade:  sim;  democracia:  principalmente.      Então, porque quase tudo tem que ter por base o igual e que, na sua maioria, não possui nenhuma relação com a música brasileira???  e, ainda, o que é pior, nivelado por baixo????   Porque é que a música que querem vender tem que ter sempre uma referência internacional????    Porque  tem que ser tão detestavelmente descartável????   Cadê as melodias????   Cadê as letras????    Cadê os arranjos?????    Um amigo nosso, músico guitarrista de primeira linha, diz que a música que insistem na mídia esta buscando nos remeter às origens:  ao tambor.    Eu digo mais, se continuar assim, a mídia vai fazer a música brasileira retornar ao etéreo  (atenção para a máxima:  HÁ EXCEÇÕES).

Em breve retornaremos com a segunda parte disto tudo.

Mande seu e-mail. Gostaríamos de ter opiniões a respeito deste assunto
 
 

                                   Ivânia Catarina & Carlos Gomes

         Novembro de 2003


 
 

Clique aqui para retornar à crônica do mes.



Para ler as crônicas anteriores, clique nos links abaixo
 

4 - Nós e o Festival de Viña del Mar (2ª parte)

3 - Nós e o Festival de Viña del Mar (1ª parte)

2 - O Susto (2ª parte)

1 - O Susto (1ª parte)