O QUE É SER DIFERENTE OU IGUAL EM MÚSICA?

(2ª parte)



Tenho escutado o rótulo “nova mpb” ser aplicado a muitos e isto me instiga a observar seu trabalho com mais atenção e aí acabo sempre por constatar que o que rotulam de novo é tão antigo.  E, sem muita surpresa, constato que o que se esforçam para rotular  como antigo continua  com um sabor tão novo.     O que rotulam de novo me parece, no fundo, apenas cópia de alguma fórmula que está dando ou já deu certo em algum momento.   Com “deu certo” quero dizer que vendeu muito.  Enquadrou-se numa nova padronização estética do que seja qualidade.   Alguém na mídia chega e define que “aquele lá”  é a qualidade do momento.  E, aí, vamo-que-vamo, faça igual e você será o novo.   (um aparte – leiam a matéria do Jornal do Nativismo – edição de outubro – www.nativismo.com.br – sobre o que pode ser considerada como uma boa vendagem de disco).

Desse modo como podemos esperar renovação???    Então para ter qualidade é preciso fazer a mesma coisa que “aquele lá”????    E a Criatividade, a Originalidade, a Personalidade de cada um, para onde vão????

Pronto, cheguei aonde eu queria.  Respondendo: vão para  OS FESTIVAIS DA CANÇÃO BRASILEIRA que não são 3 nem 4, mas sim,  centenas deles que continuaram acontecendo todos os anos pelo Brasil.  Mesmo após a televisão abortar tal evento pelos motivos mais óbvios.  O comercial comendo o cultural.  (curiosidade:  O Festival Internacional da Canção de Viña Del Mar já ultrapassou a sua quadragésima edição e é transmitido para um bocado de países todos os anos)   Diz a filosofia:  - A mídia dá ao povo o que o povo gosta....  E do que é que o povo gosta???   Do que é que o povo pode vir a gostar, quando não se é dada  opções????    Não sou inocente,  sei que esta questão “mídia” é muito complexa.  Já lemos várias teses a respeito do assunto.  Portanto,  torno aos festivais que, mesmo com toda pressão, a grande maioria de seus organizadores, ainda tentam priorizar e respeitar a individualidade, a originalidade, a arte criativa de cada um dos que passam por eles e, na minha opinião, há o mais importante:  o público comparece, toda faixa etária.   Alguns com ares de estranheza, mas estão lá, registrando a presença.  Compra os nossos discos, nos aplaude, torce e espera com ansiedade o resultado final.   Um dia destes contaremos sobre a nossa passagem no Festival da Canção de Boa Vista, Roraima.   Contaremos sobre como os músicos da região e o público estavam carentes de ouvir músicas brasileiras que,  já fazia um bom tempo, não tocava por lá.   Nos impressionou a beleza de Boa Vista.  Como é linda.  Desenvolvida e com projetos culturais bem definidos.  Pensei que fosse ter um contato mais direto com os índios, mas não, estes optavam, em sua maioria, a ficar na reserva.  Um beijão para os nossos amigos de Boa Vista.

Os festivais, ainda hoje, salvo algumas exceções,  procuram manter em sua maioria, a idéia do original.   É certo que não mais elevam um talento ao sucesso nacional como nos televisivos dos anos 60, mas, de certa forma, criam, nos municípios onde eles acontecem e nos circunvizinhos, uma grande vitrine onde os artistas podem mostrar o seu talento, a sua arte, vender uns “cedezinhos” e, numa proposta que vem se incorporando aos eventos ano após ano, a de levar o vencedor de um ano a fazer show no ano seguinte, com cachês e despesas pagas, criando, agora sim,  um novo mercado para nós artistas que participamos destes eventos e que temos um profundo respeito por todos os organizadores que se primam pela democratização das canções, pela idoneidade, seriedade e pelo carinho com que tratam a nós e ao festival.

Infelizmente, alguns festivais, bombardeados pelos ditames midiáticos, sucumbem à idéia de que para ter a nova mbp em seus eventos tem que estar alinhado com aquela tal fórmula de sucesso apregoada pelos tais formadores-de-opinião que abdicam a ética e a prática de uma reflexão cultural mais profunda sobre o assunto.   São eles os representantes das facções da mídia que insistem em impor os seus “produtos musicais”.   Ainda bem que há festivais, e muitos, pelo Brasil inteiro e organizadores éticos, conscientes e democráticos.

Curiosidade: Um dia vou pedir ao Carlos para escrever uma crônica a respeito de uma lenda que corre por aí sobre um integrante responsável pela triagem em um festival - uma das raras exceções que, em hipótese alguma, se enquadra no perfil de organizador até aqui citado - que jogou no lixo, (sem querer !!!)  um envelope contendo a inscrição de um concorrente.    Envelope que foi encontrado em um lixão onde um dos dois cheques enviados para a inscrição foi compensado algumas semanas depois em uma cidade próxima ao evento numa conta-bancária-salário do gari que o encontrou.  Nos dias de hoje, diz a lenda, o cheque nominal, microfilmado e emoldurado, faz parte da galeria de troféus deste músico.     Detalhe:  A lenda também diz que o gari ouviu a fita, gostou da música e virou fã do compositor.

Me inspirei para escrever esta pequena crônica, com pitacos do Carlos Gomes,  em uma cidade que estava realizando o seu 25º. Festival.   Iniciamos o esboço destes comentários lá, no interior de Goiás, quanta paz.  Estava pensando em como este Brasil é lindo.  Em como há espaço para compartilhar.  Seria tão construtivo para os formadores-de-opinião viajarem um pouco para  estas localidades festivaleiras para expandir um pouco mais os seus horizontes musicais.  Para se dar a oportunidade de ouvir outras “cositas más”, além das importadas.   E lembrar-se de que “natura non facit saltus et mutatis mutandis”.   Para verem que o Brasil musical se estende para além de um eixo.    Seria bom para que, no mínimo, tentassem vislumbrar que é possível democratizar a música um pouco mais, tanto para quem a faz quanto para quem a ouve.

Enfim, finalizo deixando uma pergunta no ar:    O que é ser diferente ou igual em música?

Adoramos as participações referentes à primeira parte desta crônica.  Não vamos divulgar os e.mails por solicitações e por questões puramente éticas.  Alguns são “danados” outros de uma docilidade!!!  Continuem mandando os seus e.mails. Comentem, opinem sobre esta pergunta que paira no ar.   Eventualmente, com as devidas autorizações, divulgaremos uma compilação destes e.mails.

Até a próxima.
 
 

Mande seu e-mail. Gostaríamos de ter opiniões a respeito deste assunto
 
 

                                   Ivânia Catarina & Carlos Gomes

         Novembro de 2003



Para ler as crônicas anteriores, clique nos links abaixo
 

5 - O que é ser diferente ou igual em música? (1ª parte)

4 - Nós e o Festival de Viña del Mar (2ª parte)

3 - Nós e o Festival de Viña del Mar (1ª parte)

2 - O Susto (2ª parte)

1 - O Susto (1ª parte)