"MERITOCRACIA OU JEITINHOCRACIA"








Dia desses, após receber uma premiação num dos tantos festivais em que a gente participa, um dos concorrentes, que não foi premiado veio até nós e nos parabenizou com os tradicionais tapinhas nas costas que chegaram, em princípio a nos assustar, pois foram tapinhas bem  fortes pro nosso gosto.  Estavam mais para socos do que para tapinhas.  Além dos tapinhas proferiu algumas palavras como:  - vou torcer para não encontrá-los num outro festival; e   – Vocês tem muita sorte nos festivais.

Diante de tal manifestação, ocorreu-nos que realmente ele tinha toda a razão do mundo, e que a nossa sorte, além, é claro, das horas a fio de ensaio, introspecção e seriedade na preparação do nosso trabalho, estava relacionada, também, ao corpo de jurados que  as comissões organizadoras escolhem para seus eventos.

Neste ponto, gostaríamos de ressaltar que ao longo dos anos, percebemos um grande esforço por parte dos organizadores dos festivais em escolher um corpo de jurados que acima de tudo seja idôneo, condizente com a proposta do festival e que esteja dentro das possibilidades financeiras dos eventos.  Nem sempre há um acerto pleno nestas escolhas pois o júri se divide, em geral, em dois grandes grupos, a saber:  o grupo dos que aqui denominamos adeptos da “MERITOCRACIA”  e o grupo da “JEITINHOCRACIA”.   Uma vez que, a decisão do júri, segundo os regulamentos é soberana e irrecorrível, está formado o tênue fio que separa o resultado de um festival:  de um lado o resultado meritório, que é em um resultado musical  (afinal estamos falando de um concurso de composição ) de outro lado o resultado “jeitinhocrata” que é  meramente político, cercado de interesses escusos e de opiniões pessoais acerca deste ou daquele concorrente.
 

Se o corpo de jurados escolhido for partidário da meritocracia, pouco importará se o concorrente do evento já foi ou não vencedor  de outras edições do festival; se já venceu outros festivais com a mesma música ou com outras; pouco importará se ele é bonito ou feio; se usa dentadura ou ponte; pouco importará se o violão é trovador ou é importado, se está acima ou abaixo do peso; pouco importará  se a cor do sapato combina com a roupa;  se ele, o concorrente, é sorridente ou carrancudo; se  a piada que conta no boteco é boa ou sem graça; pouco importará se é organizador de outros eventos; se é parceiro musical do jurado; se mora ou não na mesma cidade, pouco importará as tantas e tantas outras superficialidades extra música.

Se o corpo de jurado for partidário da meritocracia que julga a música enquanto  música  (letra, melodia, harmonia, arranjo, interpretação e rítmica), os concorrentes que comungam desta  mesma filosofia terão realmente muita sorte.

Por outro lado, se o corpo de jurado escolhido pela organização do festival for  partidário da “Jeitinhocracia” pouco importará a este júri o julgamento da música enquanto música. O que importará mesmo será o fato do concorrente ser ou não da cidade,   dando,  a este concorrente,  uma boa nota ou um bom conceito, para que a organização veja    (mesmo que esta não  esteja preocupada com isso) e, na sua opinião, goste e torne a convidá-lo para “julgar” no ano  seguinte;  importa se o concorrente  é organizador de outros eventos, pois assim, quem sabe, poderá usar esse bom conceito dado para arrumar uma boquinha  futuramente;   importa se o concorrente é seu parceiro musical e bem sabemos que parceria é fraternidade, o que torna impossível o julgamento isento; se o concorrente já venceu outros eventos, o jurado, no seu consciente velado, na sua opinião implícita, pensa lá com seus botões: -o que é que este cara tá fazendo aqui, de novo?   Já num “ganhô”?.   Conhecemos  uma  organizadora mineira, muito querida no métier, que ficava  (talvez ainda fique)  inconformada quando um mesmo concorrente ganhava  vários  festivais, pois na sua opinião, o sol tem que brilhar e bronzear  a todos,  mesmo que  seja um bronzeamento artificial.

Em suma, se o jurado for partidário da “jeitinhocracia” os concorrentes que preencherem um ou alguns desses requisitos também terão muita sorte.

Há também aqueles jurados que estão fora dessas  duas correntes. Um grupo é aquele dos jurados que não têm nenhuma formação  técnico-musical, indo no embalo de quem grita mais alto,  seja o grito do público, seja o grito de um jurado com mais retórica.

Outro grupo é dos modistas, os fashions, que se autodenominam modernos, descolados, que encaram, por exemplo, o R.A.P como música.  Na origem , qualquer jurado melhor informado saberia que R.A.P. é a sigla para Rythm and Poetry, trazendo isso pro nosso português, Ritmo e Poesia, portanto se tiver melodia deixa de ser R.A.P., mas deixemos essa discussão para os fashions que querem apontar as novas tendências da nova música brasileira. Esse grupo detesta, em geral,  tudo o que tem sabor brasileiro e prevalecem na sua cabecinha os hits do momento.

O jurado adepto da meritocracia é uma figura cada vez mais rara no panorama dos festivais, mas é fácil identificá-lo. Ele tem consciência de que está ali para julgar com a maior idoneidade possível, ele tem uma boa formação ideológica, técnico-musical, não se deixa levar facilmente por quem grita mais alto.  Tem bem definidos  os critérios de julgamento, assume sua função com seriedade, não fazendo dela moeda de troca .  Não fica enchendo a cara, paquerando, bisbilhotando as notas dos outros, nem jogando conversa fora durante as apresentações.  Tenta dar a mesma atenção a todos  que se apresentam, analisa antecipadamente as letras das músicas e, como já presenciamos algumas vezes, não compactua com injustiças e manifesta isso publicamente.   Assim sendo consegue ser coerente consigo mesmo, pois é alguém que trabalha pela música enquanto  arte, não fecha os olhos para o passado, tem consciência do seu papel , e portanto, coerente com o seu tempo, identificando perfeitamente as fusões que vão gerando  correntes  e tendências atemporais  que transcendem  essa cansativa retórica do novo e  do velho, de passado e futuro.
 

Ivânia Catarina e Carlos Gomes

         Julho de 2005


 



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15 - Não queremos outros Chicos e Caetanos

14 - Um hotel que perdia em estrelas mas ganhava em hospitalidade - a cloaca.

13 - Um hotel que perdia em estrelas mas ganhava em hospitalidade - divagações sobre o tema -

12 - Só peru morre na véspera -

11 - Nem tudo que reluz é ouro (última parte)

10 - Nem tudo que reluz é ouro (2ª parte)

9 - Nem tudo que reluz é ouro (1ª parte) -

8 - Salve o compositor popular (2ª parte)

7 - Salve o compositor popular (1ª parte) -

6 - O que é ser diferente ou igual em música? (2ª parte)

5 - O que é ser diferente ou igual em música? (1ª parte) -

4 - Nós e o Festival de Viña del Mar (2ª parte)

3 - Nós e o Festival de Viña del Mar (1ª parte) -

2 - O Susto (2ª parte)

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