MINHA PRIMEIRA VEZ
Naquela época, eu iniciava uma parceria com Carlos Gomes que dura até hoje...
Eu era uma menina que apenas começava a cantar no ano de 1995.
Comecei a mandar músicas para festivais poucos anos antes, mas nunca tinha mandado música para os festivais do RS. Comentava-se, na época, que eram festivais muito fechados, tradicionalistas, muito difícil passar música por lá. Sobre a Moenda, falava-se maravilhas: que era mais aberto, que os patrulhenses recebiam os “ forasteiros”, de maneira totalmente diferenciada dos demais festivais, entre outras coisas boas. Claro que me interessei em conhecer essa maravilha de lugar.
Naquele momento, gravava algumas canções do meu amigo Eugênio Gomez de Minas. Uma das canções que me encantou na época foi Casarão, música que eu mandaria para a Moenda.
Para minha grande alegria, a música foi selecionada para participar do festival. Nossa! Como custou a chegar o dia do festival!
Embarquei em Belo Horizonte (na época eu morava lá e além de tudo, era minha primeira viagem de avião) fazendo escala em São Paulo para pegar Carlinhos e assim fazermos o resto da viagem juntos. Ele também, muito excitado com a perspectiva de participação no festival, tagarelava no check in com outro passageiro sobre as maravilhas do sul. Tagarelava tanto que simplesmente não escutou a chamada para o seu vôo. Conclusão: não embarcou no vôo em que eu estava e começou a ficar desesperado procurando outro vôo para embarcar. Enquanto isso, eu preocupada no avião, sem saber o que havia acontecido(naquela época, não tinha celular direito ainda). De qualquer forma, não podia voltar, não é?
Cheguei de mala, sem cuia, sem Carlos, nem agasalho decente contra aquele frio medonho e totalmente desesperada ao local onde estava acontecendo a primeira eliminatória do festival. Com a maior paciência, os organizadores me acolheram, me acalmaram e me apresentaram ao Paulinho, músico da cidade, que, caso o Carlos não aparecesse, se prontificou a me acompanhar.
Estava muito assustada, mas não a ponto de não perceber a grandiosidade do evento e o profissionalismo com que os artistas se apresentavam. Ainda não tinha visto nada parecido. Cansada da viagem , me levaram à casa do Irani e da Carmem, que me receberam com muito carinho.
No meio da madrugada, já deitada e dormindo o sono dos preocupados, acordei com um barulho na janela. Pensei que pudesse ser um ladrão. Fiquei quietinha. Daí a pouco, o mesmo barulho, como se alguém estivesse jogando alguma coisa na janela. Bom, pensei, se fosse ladrão não iria jogar nada na janela, nem fazer barulho para acordar os moradores. Me enchi de coragem e...abri a janela. Qual não foi minha surpresa quando me deparei com o Carlos, com aquela cara de viagem e um sorriso sem graça no rosto. Eu não sabia se batia nele ou se demonstrava todo o meu alívio por ele estar ali. Optei pelo alívio e, na manhã seguinte, fomos para a passagem de som, não sem antes, agradecer muito ao Paulinho pela prontidão com que se ofereceu para me ajudar e à Carmem Monteiro que recebeu o Carlos Gomes e ainda pagou o seu táxi do Carlos de Porto Alegre a Santo Antônio, mesmo sem conhecê-lo. Claro que nós a ressarcimos depois.
À noite, na apresentação, ficamos simplesmente deslumbrados com a reação do público à música que foi muito, muito ovacionada. As pessoas elogiavam a performance, a letra da música, a música, o violão do Carlos, tudo! Os jornalistas também falavam muito da apresentação e também do pequeno contratempo que tivemos na viagem. Sinceramente, apesar disso tudo, não acreditávamos que teríamos muita chance, ainda mais porque não havia outros artistas se apresentando só com violão e voz.
A música não só foi para a final, para nossa imensa alegria, como pegamos o segundo lugar e o prêmio de melhor intérprete. Difícil descrever a emoção de ser premiado na Moenda!!!!!. Ficamos bastante tempo sentindo aquele doce sabor, rememorando os momentos vividos lá, as pessoas fantásticas que conhecemos, o respeito demonstrado pelo nosso trabalho.
Posso dizer que foi um passo gigantesco em direção à maturidade profissional. Espero que festivais como a Moenda possam ter sempre o apoio das autoridades e da população em geral, pois eles realmente dão uma importantíssima contribuição na formação humana e artística dos artistas que por lá passam e, porque não dizer, na construção e preservação da identidade cultural brasileira.
Um abraço.
Para ler as crônicas anteriores, clique nos links abaixo
17 - Quatro ponto sete no Festival de música da Bahia
16 - "Meritocracia ou Jeitinhocracia"
15 - Não queremos outros Chicos e Caetanos
14 - Um hotel que perdia em estrelas mas ganhava em hospitalidade - a cloaca.
13 - Um hotel que perdia em estrelas mas ganhava em hospitalidade - divagações sobre o tema -
12 - Só peru morre na véspera -
11 - Nem tudo que reluz é ouro (última parte)
10 - Nem tudo que reluz é ouro (2ª parte)
9 - Nem tudo que reluz é ouro (1ª parte) -
8 - Salve o compositor popular (2ª parte)
7 - Salve o compositor popular (1ª parte) -
6 - O que é ser diferente ou igual em música? (2ª parte)
5 - O que é ser diferente ou igual em música? (1ª parte) -
4 - Nós e o Festival de Viña del Mar (2ª parte)
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