"Não queremos outros Chicos e Caetanos"






Depois de um tempinho sem um assunto que me despertasse de um sono quase invernal (pois como afirma o Carlos,  não sei se com razão, depois do cantar, o que eu gosto mesmo é de dormir),  eis que retorno para comentar sobre a profundidade da frase-pérola, que dá título a esta crônica.    Num destes finais de semana, deste final do ano de 2004, estive participando de um festival da canção que aconteceu na cidade de Botucatu, interior de São Paulo.  Aconteceu num clube, num local bem acessível ao público, mas que, pela falta de divulgação foram,  basicamente, os próprios  concorrentes que assistiram.  Além da péssima acústica onde mal se distinguiam  os sons.     Destina-se verbas para tudo, menos para o marketing viral, o tal marketing da visibilidade do boca-a-boca e, portanto, na falta dele.... Enfim, entre uma canção e outra, conversando com alguns colegas de palco, escutei a tal frase-pérola.      O que aparentemente poderia configurar-se como um comentário ocasional e despretensioso  possui na realidade uma profundidade digna de tese.

No momento em que a ouvi, dado o impacto da observação regurgitada pelo nosso colega e, evidentemente,  para poder avaliar melhor a sua observação,  não disse absolutamente nada e permaneci alguns segundos com o queixo caído.     Além de dorminhoca, como diz o Carlos, cantora, compositora e, mais recentemente, estudiosa do violão, sou também educadora e ter escutado a dita frase-pérola trouxe-me o vislumbre de algo que vem já há algum tempo me incomodando.  Algo que  tento encontrar palavras para explanar e não as encontrava até este dia.    Só reforçando, além das atividades acima estou, humildemente, aprendendo a tocar violão, em princípio para ilustrar as minhas aulas com música e depois, quem sabe, fazer um duo instrumental com o Carlos (sonhar não custa nada).  Neste meu aprendizado, tenho conhecido alguns professores e o que percebi, por aí,  em termos de pedagogia de ensino de música, tem me assustado um bocado.

A maioria das pessoas que vai estudar o violão, vai com a intenção de, num curto espaço de tempo, estar tocando para se acompanhar em festinhas, tornar-se popular entre a moçada do colégio, da vila....e o grande lance:  quer tocar a música que toca no rádio, etc.       São poucos os que procuram a escola com a vontade de realmente conhecer mais profundamente o seu instrumento.  Saber os “porquês”.  Conhecer a história, a teoria, harmonia.   Ter conhecimento para poder conversar sobre música.  Saber ouvir uma peça e perceber os aspectos técnicos tanto de execução quanto de composição. E, é claro, tudo isto, sem ferir a sensibilidade pelo belo e ter discernimento para não ignorar o esforço criativo de um artista.  Há obras que podemos até não gostar, mas não podemos deixar de reconhecer o seu valor.   Voltando ao foco de minha observação, vejo que o imediatismo que algumas escolas e/ou professores propiciam aos alunos, centrando os seus esforços para que numa questão de dias ele já esteja tocando o hit do momento é uma filosofia meio  comum  (  o autor desta frase-pérola é professor de violão ) pois, me parece, tal filosofia  ajuda a segurar os alunos por mais tempo.

Fica como resposta aos meus questionamentos que a idéia básica é não oferecer ao aluno nada muito profundo, nada muito concreto, nada que venha a abrir leques de interpretações que possam  “fundir” a sua cabecinha.   Se agirem de forma contrária, o futuro candidato a músico troca de escola  e aí já viu, né?  Quem vai  pagar o pão?     Muitos sítios na Internet oferecem cifras de músicas.      Para um profissional, poupa esforços.  Ele pode escolher caminhos a partir do que está ali sugerido, melhorando, se for o caso,  as harmonias, pois as mesmas ali são caminhos básicos.     Mas para quem quer aprender a tocar o violão, cria uma limitação que só com muita dedicação poderá ser rompida no futuro.    Se o cara estuda, ele saberá identificar os graus e as cadências aplicadas e transportará a canção para qualquer tom.  Caso não estude, ficará a vida inteira  limitado a tocar a música somente naquele tom.
Diante de tudo isto, sinto que entendo agora melhor o que me incomodava.  Tais escolas e professores que trabalham nesta perspectiva, vão formando pessoas que, não me admiro,  aumentam o contingente dos que  pensam assim como o nosso amigo professor de violão.
E vão colocando cada vez mais no esquecimento os Chicos e Caetanos (e vários outros) que representam uma geração de artistas que se preocupam... (eles ainda estão conosco – apesar dos do contra) se preocupam com o que estão dizendo às pessoas e não apenas isso, se preocupam com  a maneira como estão dizendo aquilo que acreditam.     Diante desta realidade, infelizmente a tendência será sempre  nivelar tudo bem por baixo. Nivelar tudo quase ao nível do medíocre, para desta forma, fazer com que tudo caia na “área de interesse” do aluno iniciante.    O lema parece que é  Facilitar, facilitar e facilitar.

Precisamos dar outras opções para as pessoas.     O ser humano tem uma tendência a rejeitar quase tudo aquilo que não conhece.  Somos instintivamente preconceituosos, todos sabemos disso.  Precisamos nós, professores de violão, educadores em geral, estarmos sempre na tentativa de mostrar aos que nos são próximos que existem opções. Mais do que isso, mostrar as qualidades de cada estilo.    E já que falamos em estilo, vejam só o contraste:  estive em um festival,  onde o organizador teve a preocupação de fazer uma seleção bastante democrática, fazendo um verdadeiro mosaico do panorama musical brasileiro. Vi e gostei de ver a galera do hip-hop, do pagode, do samba, do erudito-popular, da MPB, do rock, da música sertaneja, das modinhas, etc.     Nossa música obteve uma boa colocação no evento, no entanto, ainda não consegui identificar quais foram os critérios que escolheram para avaliar as canções visto cada uma das finalistas, dentro do seu estilo, ser perfeita.     Então, se formos levar em conta a tal frase-pérola, provavelmente teríamos que sugerir que, além de não querermos Chicos e Caetanos, acrescente-se a lista, Gabriel Pensador, Arlindo Cruz e Sombrinha, Roberto Carlos...e, enfim, vamos parar de fazer música...

Para encerrar, estudar música é altamente enriquecedor, temos toda uma história linda da humanidade na sua busca incessante de expressão e sensibilidade através dos sons e da palavra cantada.    Acho que a nossa missão no mundo, como educadores  é possibilitar ao ser humano  ter  opções, pois, do contrário, seremos nós os principais responsáveis por eles se tornarem  vítimas dos marqueteiros pouco preocupados com arte.  Vítimas dos marqueteiros que  botam numa única jaula, leões e carneiros, fazendo assim com que se perca o sentido mais elementar da arte que é a manifestação do sentimento.

Entendo que sublimadamente esses marqueteiros são a cada geração mais fortalecidos ao contarem com a ajuda destes tais  educadores e/ou professores de música que ao invés de abrirem leques de opções para seus alunos fazem com que os mesmos se insiram ainda mais no jogo do mercado.    E aí ganhamos como trauma estas  frases-pérola do tipo “não queremos outros Chicos e Caetanos”...     Eu digo que não quero mais CC que é o mesmo que CoCo ou pode ser também esse cheiro ruim que vem das rádios  (salvem-se as pouquíssimas exceções).   Nas minhas orações sempre rezo para que além dos gringos e japoneses, os brasileiros queiram, queiram e queiram mais, muito mais, outros Chicos e Caetanos  com incrementos  de  Jobins, Villa-Lobos, Pixinguinhas, e, se isso não for possível, que venham a tona, outros tantos  que inflamem os nossos ouvidos com belas e harmoniosas canções.  Outros tantos que, por sua vez,  tenham tido a sorte de beber daquela fonte, podendo assim deixar de legado aos nossos filhos  a certeza de que temos um dos patrimônios mais admirados no mundo:  a nossa música.

Até a próxima.

Ivânia Catarina

         Janeiro de 2005


 



Para ler as crônicas anteriores, clique nos links abaixo
 

14 - Um hotel que perdia em estrelas mas ganhava em hospitalidade - a cloaca.

13 - Um hotel que perdia em estrelas mas ganhava em hospitalidade - divagações sobre o tema -

12 - Só peru morre na véspera -

11 - Nem tudo que reluz é ouro (última parte)

10 - Nem tudo que reluz é ouro (2ª parte)

9 - Nem tudo que reluz é ouro (1ª parte) -

8 - Salve o compositor popular (2ª parte)

7 - Salve o compositor popular (1ª parte) -

6 - O que é ser diferente ou igual em música? (2ª parte)

5 - O que é ser diferente ou igual em música? (1ª parte) -

4 - Nós e o Festival de Viña del Mar (2ª parte)

3 - Nós e o Festival de Viña del Mar (1ª parte) -

2 - O Susto (2ª parte)

1 - O Susto (1ª parte) -