Nem tudo que reluz é ouro (1ª parte)
Incrível! O tempo passa, gerações vêm e vão e o que se pode confirmar consistentemente é o quanto Karl Marx estava certo quando dizia que tudo na sociedade é previsível. Ano após ano, temos tido a oportunidade de constatar a veracidade da afirmação deste tão respeitado philósofo. Basta observarmos que quando os governantes mundiais finalmente compreenderam e constataram como eram premonitórias as suas teorias, passaram a trabalhar conjuntamente, no sentido de reverter os caminhos que levavam à comprovação de suas teses. Essa compreensão e aceitação de suas teorias fez com que o planeta respirasse perspectivas bem maiores de permanência no sistema solar, vide a desativação do “star wars” e os acordos internacionais para a paralisação da produção de armas químicas e nucleares. A “guerra”, ainda bem, passou a ser discutida no plano das conjecturas e conseqüências da evolução do neoliberalismo, onde alguns países que, por não suportarem a perda de mercado para outros, cujos produtos os superavam em marketing e/ou qualidade, decidiram retaliar e se impor pelo poderio financeiro e ideológico. Felizmente, pelo menos até agora, estas disputas, quase que totalmente, deixaram de ser bélicas e ficaram no âmbito dos sussurros diplomáticos e divagações intelectuais, como esta que faço agora. Há que se ressaltar algumas exceções, uma delas é a parte do Oriente Médio que chutou o balde do intelecto e partiu pra porrada e, pelo visto, vai continuar chutando o tal balde ainda por um bom tempo. Outras exceções ( e estas nos afetam diretamente ) são as que ocorrem nos demais sub-ciclos micro-sociais que compõem o alicerce hierárquico do que socialmente é importante para a formação do caráter patriótico de um cidadão. Estes sub-ciclos micro-sociais continuam, na sua quase absoluta maioria, seguindo os caminhos definidos na dialética marxista relativamente ao cíclico e previsível. Sofrem com a corrupção, com o nepotismo, com a segregação, com o pouco e, em alguns casos, nenhum incentivo à preservação da memória dos valores culturais nativos. Ficarão assim até que chegue, vindo do mais iluminado dos planos espirituais, um cérebro diligente que, como nos contextos macro, venha a interromper estes atuais caminhos tão impregnados de vícios, jeitinhos, ranços e jabaculês. Idênticas às relações macro-sociais ( que estão no plano intercontinental e são administradas pelos governantes de cada nação ), são as relações micro-sociais. Estas, por sua vez, são administradas por pessoas que foram indicadas pelos governantes maiores “cheios de boas intenções” que, por sua vez, também indicaram outros que delegaram a outros e outros que, por sua vez, indicaram e delegaram mais alguns outros que, por sua vez, também delegaram a outros e outros e outros e assim vai até chegarmos ao núcleo de cada um destes micro-universos que poderão até ser administrados pelos auxiliares substitutos dos assistentes dos fiscais das sub-regionais das prefeituras e afins. É mole?
Brincadeiras à parte, aparentemente tudo isto pode parecer uma grande loucura, mas, não é não. Esta dissecação toda é para enfocar que, tanto os segmentos de questões macro-sociais, ( cuja responsabilidade é dos governantes máximos de uma nação ), quanto os segmentos de questões micro-sociais, ( cuja responsabilidade é dos secretários designados e similares ), estão, ambos, em alinho com o contexto da composição dialética Marxista. E, o segmento dos sub-ciclos micro-sociais em que meu pensamento se fixa é o que diz respeito ao sócio-cultural que congrega as mais variadas formas de expressão artística. Ainda nesta direção, vou ao encontro, mais especificamente, de um de seus itens, o que enfoca o meu metier: a música. Ah! A música... Melodia, palavras, pulso (às vezes sem pulso, mas bem viva), base harmoniosa e tudo o mais que a imaginação permitir. Música que enleva e nos leva para um mundo todo particular, onde, com licenças poéticas, contamos segredos que continuam segredos mesmo depois de serem descaradamente revelados. A música que inventa e desarranja... Toda aquela história da teoria marxista caberá, como em tudo, também, neste universo. E aí, já que os meus comentários girarão em torno de sua dialética histórica, não posso deixar de citar uma outra personalidade que, para mim, também é um grande filósofo, este bem mais contemporâneo. Uma fantástica e séria celebridade que se chama José Ramos Tinhorão que fez uma autópsia na história da música no Brasil, narrando e citando, com as devidas referências, fatos que foram marcando a sua evolução (ou involução) através do tempo e fez certeiros diagnósticos quanto aos caminhos que esta manifestação artística seguiria e onde viria a desaguar.
Escreveu sobre o surgimento do que, incipientemente, começou a ser chamado de mercado musical, desde os idos e adoráveis anos 30. Sobre os caminhos que, como já disse o poeta, foram gerados pela “força da grana que ergue e destrói (ou coloca no ostracismo) coisas belas”. Caminhos que esta força foi impondo aos gostos e costumes. Caminhos que foram suplantando a nossa primeira formação musical que era um misto de popular com erudito. Que era espontânea e oriunda das influências afro-européias. Caminhos que foram se impondo pelo vigor e pela excessiva confiança da indústria americana em seu objetivo precípuo do “american way of life”. Caminhos que se consolidaram ainda mais com o surgimento e apoio dos produtores culturais ( estrangeiros ou brasileiros que se identificavam perfeitamente com aquela filosofia ) que, já naquela época, pensavam: “se a galera de lá gosta, a daqui, certamente, também vai gostar” e, que se consolidaram, também, pela, quase que total eliminação de fontes que viessem a possibilitar as confrontações. Praticamente impossibilitando a execução de músicas calcadas em valores que não eram considerados como comercializáveis. Eliminando a espontaneidade criativa individual a favor de uma fórmula única e coletiva que deixou como legado uma quase que total falta de opção auditiva, além de uma enorme dúvida sobre o que realmente poderia definir-se como o melhor para cada um. Deixou o legado de que só é possível gostar e achar que é ótimo o que a “intelligentsia” apontasse ou os homens do mercado disponibilizassem. Quem estivesse fora do contexto era careta e demodê ou, como nos dias de hoje, alternativo.
Há que se reconhecer que souberam trabalhar bem o nosso perfil tábula rasa e pouco nacionalista. Perfil que, tenho a impressão, no entendimento delas ( as multi ), já se consolidou. Aí, quando você vem a conhecer um pouquinho mais sobre o nosso passado cultural, bate aquele orgulho no peito por saber que por aqui já passaram personalidades como o escritor Mário de Andrade, a artista plástica Anita Malfati, o Maestro Heitor Villa-Lobos e mais alguns outros que, a exemplo do que ocorreu com o Maestro Alberto Nepomuceno, a “história” não deu o devido enfoque. Explicações para o porque disto até haveria. Marx explica. Para destrinchá-las, teríamos que adentrar por um outro enfoque muito delicado. Um que englobaria, acredito eu, aspectos terapêuticos, posições sociais e financeiras. Cá entre nós, preconceitos, frustrações, segregações, inveja, nepotismos e abuso de confiança e de poder existem desde a era glacial. Mas, por enquanto e neste nosso contexto, vamos tentar ignorá-los. Temos que inflar o peito de orgulho por serem brasileiros os cérebros destas personalidades. Muito do que ainda hoje temos o prazer de ouvir ou produzir, são resgates e influências das obras destes nossos mestres que estão e ficarão armazenadas no nosso subconsciente por um zilhão de séculos.
O telefone está tocando.... É o meu vizinho: Carlão, cê já ouviu está canção??? Eu: já. É Rio Acima de Ulisses Rocha.... Meu vizinho: linda, né????
Carlos Gomes - compositorMaio de 2004
Para ler as crônicas anteriores, clique nos links abaixo
8 - Salve o compositor popular (2ª parte)
7 - Salve o compositor popular (1ª parte)
6 - O que é ser diferente ou igual em música? (2ª parte)
5 - O que é ser diferente ou igual em música? (1ª parte)
4 - Nós e o Festival de Viña del Mar (2ª parte)
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