Nem tudo que reluz é ouro (2ª parte)
E olha a dialética. São coisas que vem acontecendo de longa data. Enquanto o músico brasileiro, nas suas composições, quebrava tudo nas divisões rítmicas e melódicas, acrescentando graus que iam além das tônicas, terças e quintas, eram as convenções americanas pobres e previsíveis que eram empurradas para o gosto popular. Não que lá não houvesse coisas lindas. Ouço Wes Montgomery e fico encantado. Tenho um vinil de Joe Pass onde ele explora a sua guitarra “desplugada” com uma leveza que só vi no Brasil em um time fabuloso de violonistas. Time que, inusitadamente, para mim, tem dois capitães: Paulo Bellinati e Théo de Barros (universais). Mas, para entender e gostar disto, tem que parar, tem que escutar. Isto leva tempo e, como no bom tom do capitalismo, tempo é dinheiro, optaram pelo mais prático. E começou o marketing da hegemonia. A tal da hegemonia americana. “O mundo será igual a nós”. “We’re the champions”. “We’re the best of the world”. Era a manifestação de seu intróito no Brasil e no mundo. Eram as suas fórmulas melódicas, os seus convencionais “beats” e sons, roupas, carros, etc...que já exportavam e/ou vinham sendo trazidos de lá ou pelos brasileiros aficionados ou pelos produtores de “visão”. E, tudo isto, vinha para nós com o título de moderno. Fico tentando imaginar como ficava a batida do coração do Pixinguinha nesta época, ao ver tudo isto saindo pela boca dos “formadores de opiniões”, como se fosse o que havia de melhor, moderno e criativo no mundo musical. Percebam que esta história de “nova música brasileira” e “moderna música brasileira” já é bem antiga e de pura falta de imaginação. Dialética.
Interessante é que o jazz (segundo a história, a sua fecundação começou no desembarque, em 1619, dos 14 primeiros negros, vindos do Congo ou da Costa do Ouro, vendidos como escravos a colonos da Virgínia), aparentemente, vivia lá pelos “States”o mesmo dilema: Era tido como música alternativa. Quero esclarecer que quando digo jazz, não me refiro ao destinado às multidões e à dança, que é o rhythm’n blues, nem àquele que se apresenta nos moldes de concerto e que toma de empréstimo, na sua execução, diferentes clássicos. Quando digo jazz me refiro ao “jazz livre”. Que é um segmento do jazz que é alicerçado, basicamente, nos “improvisos”. Que aproxima o popular do erudito. Que se prima pela busca, pela aplicação técnica e utilização de escalas bem pouco convencionais dentro dos campos harmônicos como é o caso dos “outside”. Que tem finalidades próprias. Tocado menos para o público e mais para a satisfação de seus intérpretes e ensaístas. Tanto este “jazz livre” quanto a “livre música brasileira” que não atendia ao perfil das gravadoras, viviam à margem da cultura ou da política. Eram, ambos ignorados como potencializadores de mercado. E veio a vitrola, o vinil, o rádio, além, é claro, da aterrissagem definitiva, no Brasil, das gravadoras americanas que chegaram contratando produtores e diretores artísticos que, como já citado, eram perfeitamente identificados com a sua política hegemônica e massificadora. E, derradeiramente, chegou, nada mais, nada menos que a nossa querida e inseparável amiga: a televisão. Não podemos ser tacanhos, fechar os olhos e deixar de reconhecer a grande responsabilidade que a vinda destes e vários outros utensílios tiveram sobre a evolução e revolução cultural nos países onde eles foram instalados. Porém, o que eu sugiro que se questione é a forma como os mesmos foram utilizados na direção do aniquilamento dos sentimentos que pudessem vir a valorizar e fortalecer o nosso nacionalismo. Que se questione a forma como foram utilizados em pró da supervalorização de elementos estrangeiros que nada tinham a somar para nós brasileiros, mas sim muito a somar para o bolso dos yanques.
Com muita atenção e perspicácia de cérebros iluminados, o previsível da dialética marxista foi interrompido no universo macro-social , porém no micro-social, nos seus alicerces, nos seus sub-ciclos, não foi possível. Então, dançamos. E sem essa de falar que a tarefa de interromper esta dialética marxista no mercado da música é do músico. Sem esse papo de falar que músico não é unido. O músico quer é estar fazendo música. Quando se tem talento para produzir, para criar, não sobra muito tempo para organizar uma ordem dos músicos profissionais. Não sobra muito tempo para racionalizar a profissão ou organizar a sua arte. Esta tarefa, pelo triste caminho das circunstâncias, é deixada para alguns que, com a sua “visão” de mercado, impõe as suas obras de segunda (e até de terceira mão) e seguem enganando o povão. Há que se ressalvar aqui raras e louváveis exceções
Esta vinda poderosa e muito bem estudada das gravadoras internacionais, fez nascer quase que instantaneamente, uma ruptura na arte musical: de um lado, classificou-se a música deles ou as brasileiras que tivessem ritmos parecidos com as deles (qualquer semelhança com a nossa realidade não é mera coincidência), deste lado ficou a música que denominaram como sendo a música de mercado, a música que o marketing iria trabalhar para tocar e vender. Do outro lado, ficou a música que não interessava. A música marginalizada. A música alternativa. A música que não seria trabalhada e muito menos tocada.
Temos que tirar os nossos chapéus para os empresários destas gravadoras (brasileiros ou não), pois, com paciência e com um planejamento de longo prazo e de reconhecida e magnânima eficiência, conseguiram se estabelecer “solidamente” até os dias de hoje. Enfim, quem leu ou lê um pouquinho da história da evolução da música no Brasil e, principalmente, Tinhorão, sabe exatamente do que estou falando. E, de novo: como Karl Marx foi incrível!!!! Para não se ater a nenhum item específico, elaborou uma teoria macro, mas perfeitamente adaptável a cada um dos seus elos, cujas ramificações, definem todo o contexto de uma sociedade. Seria tão agregador se os nossos homens ligados às áreas culturais conseguissem, em nossas bases, quebrar esse ciclo excessivamente vicioso e abrir no mercado precedentes para ampliar os seus horizontes, como, por exemplo, para a música instrumental, para a música erudita clássica e para a musica erudita nordestina de Hermeto Pascoal, para a música de Egberto Gismonti. Ampliar os horizontes para o “jazz livre”, para a “livre música brasileira”. Para a música que alguns dizem (sem saber bem o que estão dizendo) que “...é música para um outro tipo de público” . Para a música que estes mesmos chamam de alternativa por não seguir fórmulas de “sucesso” e, portanto, entendem eles, que não vende muito. Será que tudo que vende muito pode ser considerado bom? O álcool, a maconha, o crack e a cocaína, segundo o que se divulga, são muito vendidos. Serão bons? Há quem goste. A diferença é que nestes casos, quem não gosta, tem a opção de não consumí-los.
Com um pouco mais de atenção, acredito que os nossos ministros e secretários ligados à cultura (ratifico: cultura que é a implícita micro-ramificação deste universo teorizado na dialética de Karl Marx e que tem vital relevância na formação do caráter patriótico de um povo), poderiam dar às produções musicais brasileiras uma possibilidade de mercado um pouco mais diversificada e, talvez, com um pouco mais de substância. Que tal leis que determinassem que as rádios não poderiam repetir uma música num prazo inferior a 36 horas? É um exemplo. Tenho certeza de que, se quiserem, não faltarão idéias. Se quiserem, de fato, não faltarão alternativas. Talvez até faltem músicas para preencher todo o tempo, mas idéias não faltarão. É tão constrangedor quando encontramos uma galerinha com a idade de 16, 18, 20 anos que não conhece Chiquinha Gonzaga, Dolores Duran , Paulinho Nogueira, Radamés Gnatalli, Tom Jobim, Itamar Assumpção, Fátima Guedes, Joyce, Chico Buarque, Paulinho Pedra Azul, Paulinho da Viola, Geraldinho Azevedo, Vânia Bastos, Guinga..... E olha que as rádios ainda os tocam. Imaginem o que é que sobra para os mais contemporâneos que quase nem tocam? E para os que estão chegando?
A exemplo dos governantes mundiais que conseguiram com a sua sensibilidade evitar, pelo menos até agora, a “terceira onda”, o apocalipse, não poderiam os nossos governantes maiores juntamente com os gestores da cultura, brigar, no bom sentido da palavra, para reverter a dialética de Marx que é fluente neste micro-universo? E, por favor, não entendam estas idéias como radicais ou ditatoriais. Elas se enquadram no mais puro contexto da democracia. A ditadura está, antes, na força da grana ao impor o que é pra ficar gravado em nossos subconscientes. A ditadura está, antes, no poder do din-din ao impor e delinear os caminhos em direção a famigerada hegemonia dos yanques. O democrático está em não deixar que os impostos pagos pelas “multi” e a sua respectiva margem de contribuição na balança comercial tenha o poder de financiar a construção da grande borracha que apagará completamente a nossa memória musical (li, recentemente, em um artigo que esta margem de contribuição, em algum momento, já foi maior que a margem de contribuição do trigo). Haverá preço para a perda da memória cultural de um país? E aqui chego a mais um dos segmentos micro-sociais onde podemos identificar a resistência de mentes iluminadas e de muita personalidade. Um segmento onde encontramos democracia musical (o palco é democrático para todos os gêneros). Um segmento onde encontramos mentes perspicazes que, até a presente data, vem conseguido interromper os caminhos da dialética marxista do cíclico e previsível. Este segmento compreende OS FESTIVAIS BRASILEIROS DA CANÇÃO. Mas, querem saber de uma coisa? Agora eu vou tomar um chá verde, não o de sachê, o manipulado e dar uma boa relaxada. Mas, em breve, voltarei para dar continuidade nesta viagem.
Carlos Gomes - compositorMaio de 2004
Para ler as crônicas anteriores, clique nos links abaixo9 - Nem tudo que reluz é ouro (1ª parte)
8 - Salve o compositor popular (2ª parte)
7 - Salve o compositor popular (1ª parte)
6 - O que é ser diferente ou igual em música? (2ª parte)
5 - O que é ser diferente ou igual em música? (1ª parte)
4 - Nós e o Festival de Viña del Mar (2ª parte)
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|