Nem tudo que reluz é ouro (última parte)
Tivemos, na década de 60/70, um interlúdio de patriotismo musical explícito e, pasmemos: isto foi na época da ditadura, do militarismo. Dá para acreditar? Na ocasião em que não podíamos fazer ou falar era exatamente quando mais fazíamos e falávamos. Diante de tanta adversidade e monopólios culturais e, por mais estranho que isto possa parecer, sempre existiram pessoas preocupadas em manter as raízes da “livre música brasileira” em evidência, apesar dos adjetivos de demodês, de quadrados, de alternativos, etc...
Há que se ressaltar que antes dos festivais televisivos, em preto e branco, iniciados em fins dos anos 60, já havia os encontros musicais em memória de algumas tradições como os encontros em memória da música de barbeiros. Os encontros e mostras dos chorões e até alguns Festivais da Canção que, até aquele momento, ainda não eram vistos pelos produtores artísticos das gravadoras, dos programadores de rádio e TV e de outros “dores” das suas gerações e, conseqüentemente, ficavam restritos aos seus rincões. O que me chama a atenção é o fato de como estes festivais regionais passaram de forma tão furtiva e desinteressante aos apurados sentidos dos pesquisadores da história da música. Será, talvez, por questões regionais e financeiras? Bom, aí nos aprofundaremos mais ainda no campo das elucubrações. Tal ausência de matérias sobre os Festivais da Canção “regionais” sempre me chamaram a atenção. Mesmo porque, há alguns nomes que se projetaram através dos festivais televisivos e que marcaram presença nestes eventos. É sabido que, vários destes festivais pré-televisivos, continuam sendo realizados pelo Brasil inteiro e, conseguem levar para seus eventos uma grande quantidade de músicos, compositores, intérpretes e canções que nos deixam antenados com as possibilidades criativas da “livre música brasileira”. Isto tudo acontecendo mesmo com o massacre musical imposto pelas gravadoras, rádios e TVs. Afirmo, com conhecimento de causa, que a grande maioria destes festivais, apesar dos pesares, vai muito bem, obrigado.
Muito prazeroso ler ou ouvir que alguns pesquisadores musicais, mencionem que ainda sobraram alguns festivais não televisivos e relacionem meia-dúzia deles passando para nós a idéia de que são os mais “importantes” (ou foram até um tempo atrás). Esta citação acontece no livro intitulado A Era dos Festivais do pesquisador musical Zuza Homem de Mello (a essência do livro é sobre os festivais que tiveram coberturas televisivas). O livro é muito envolvente, além de ser, na minha opinião, um excelente documento histórico sobre estes festivais que tiveram cobertura televisiva. Porém, me pareceu um tanto quanto injusto definir apenas aquela meia-dúzia de festivais contemporâneos e não televisivos como sendo os “mais importantes”. É sabido que toda lista que é feita por “um” ou é feita por “poucos”, certamente deixará um bocado de gente insatisfeita. Aí alguém diz: “Pô, Einstein, e isso é novidade? É óbvio que os que não fizerem parte da lista, juntamente com os pais, os amigos e os cachorrinhos deles vão ficar insatisfeitos”. E eu digo: - Então, melhor seria que uma lista fosse feita por um bocado pois, assim, os insatisfeitos seriam os “poucos” ou o “um” e, é claro, os amigos, os pais e os cachorrinhos deles, também. Infelizmente, como acontece em todos os contextos sociais, o poder de mando e decisão quase sempre fica na mão dos “poucos” ou do “um”. E azar daqueles que não fizerem parte do seu círculo de amigos ou parentes. Bom, este já é um outro tema.
Com todos os quilômetros rodados ao longo dos anos e conhecendo praticamente e in loco todos os festivais da canção que acontecem pelo Brasil e em cujos palcos tive o privilégio de estar, me autorizo a dizer que as palavras “mais importantes” devem ser traduzidas para “mais divulgados”. Endosso, sem dúvida e sem nenhuma restrição que os festivais não televisivos relacionados no livro são muito importantes. Mas, também o são os que ali não aparecem relacionados. São, estes tão importantes quanto aqueles. E quando opino é com conhecimento, pois só para efeito de registro, dos festivais relacionados no livro, fomos vencedores do Festival de Avaré- SP e Tatuí-SP, Fercapo (Cascavel, PR) e Boa Esperança-MG. Participamos de Uruguaiana-RS, de Juiz de Fora-MG e do Femp (São José do Rio Pardo-SP). Com relação ao Festival de Avaré e o de Tatuí temos histórias interessantes para contar. Quem sabe numa próxima crônica. Quanto ao Musicanto, em Santa Rosa – RS, é o único festival aberto que nunca participamos mas, pelo que pude acompanhar, me parece ser ele o pioneiro naquele Estado a misturar os rítmos da cultura gaúcha com os de outras regiões do país. Entretanto, acho que é válido mencionar, também, outros importantes festivais abertos no Rio Grande do Sul, como é o caso da Moenda da Canção em Santo Antonio da Patrulha e o Canto da Lagoa em Encantado. Enfim, há muitos festivais importantes pelo Brasil. Alguns festivais que, à primeira vista, parecem ser desconhecidos aos olhos dos críticos, historiadores e que, no meu ponto de vista, gozam de muito respeito e tradição neste metier, como, por exemplo, o Festival de Música de Alegre - ES (a cidade quintuplica o número de habitantes por ocasião do evento); o Festival de Paranavaí- PR, que reune música, contos e poesia; o Festival de Ilha Solteira, SP; o Festival de Itacoatiara, AM. Estes, o Brasil inteiro os conhece. Há outros tantos que se distribuem por todas as regiões brasileiras. Em nosso sitio, fazemos questão de deixá-los registrados. Quem quiser ver uma lista com os muitos festivais que acontecem pelo Brasil, é só clicar no botão “premiações” e verá quantos são os festivais contemporâneos que, na minha opinião, com menos ou mais divulgação, ou, se preferirem, mais ou menos “glamour”, gozam da mesma importância que quaisquer outros. E, ratifico, caso na ótica dos críticos, pesquisadores ou historiadores, também defina-se por “importantes”, aqueles festivais que tiveram por participantes compositores e intérpretes que hoje são, na concepção deles, consagrados, é só pesquisarem que encontrarão nos muitos festivais brasileiros, nomes como Godofredo Guedes, Milton Nascimento, Celso Adolfo, Zé Geraldo, Edu Lobo... É só procurar e achar.
Retrocedendo um pouco. Não precisamos ser formados em marketing para saber que, desde os seus primórdios, a televisão não dá ponto sem nó e, no final dos anos 60 e começo dos anos 70, ao perceber que o evento, festival da canção, dava certo no exterior e reunia um público razoável, um produtor mais sensível e idealista teve a idéia de promover um festival televisivo. Por ter capacidade para tanto, fez o festival ganhar dimensão de mercado nas gravadoras. Funcionou naquele momento. Foi uma fase áurea. Deixaram um legado eclético de compositores e intérpretes que, dificilmente, serão esquecidos enquanto existir o Brasil. Os tempos são outros. Não vejo, a curto e médio prazo, expectativas de interrupção do cíclico e previsível de Karl Marx. O que sinto é que há a necessidade de que todos os músicos, compositores, intérpretes e o público que acompanham e prestigiam os festivais da canção abram os olhos para que continuem a não se deixar levar pelas imposições de mercado em detrimento da “livre música brasileira”. Que fiquem atentos para as tentativas de alguns “formadores de opinião” que, por gozarem deste prestígio, querem nos fazer crer que apenas onde haja grana e publicidade é aonde há “qualidade” e “importância” digna de menção. Que o trabalho só será bom se lembrar algo já consagrado. Que fiquemos atentos para não nos deixarmos levar, sem questionamento, por algumas idéias que venham a diminuir a importância de um coral que, apesar de não dispor de facilidades financeiras, emite um som bem maior que eventuais solos bem patrocinados. O coral ao qual me refiro é o coral dos organizadores dos festivais. O coral dos Festivais da Canção que, reforço, são todos igualmente importantes. Não só por que há neles nomes de artistas que se consagraram ou que batem com as particularidades dos pesquisadores, mas, também, por que há neles artistas ainda anônimos que apesar de não contarem com o poder da mídia, são íntegros com as suas verdades. Que sejam dados os devidos créditos e louvores aos festivais e aos seus organizadores que, por pura força ideológica, faziam e fazem acontecer em suas cidades, este caldo cultural congregando músicos, compositores e intérpretes das mais diversas tendências e que, na sua grande maioria e acima de tudo, preservam uma linha musical muito própria. Que congrega artistas que preservam o ser original e, acima de tudo, a “livre música brasileira” que, como tudo, evolui e enriquece os seus elementos. Que fiquem atentos para as misturas. Para aqueles casos maravilhosos em que as idéias da criação não se enquadram na estética comercial que a mídia quer impor. Que fiquem antenados para o gênero musical que não acha classificação nos gêneros tradicionais, mas que qualquer um, com um pouco de perspicácia e sensibilidade, perceberá que ali está um trabalho original, um trabalho que visa mostrar o quão amplo é o universo da boa música que é feita no nosso planeta. Que os organizadores dos festivais continuem nesta árdua batalha de manter erradicada destes eventos a dialética histórica marxista do cíclico e previsível e, a exemplo das grandes mentes mundiais, mantenham intocável, democrático e independente esse micro-universo que é o dos FESTIVAIS BRASILEIROS DA CANÇÃO.
Até a próxima.
Ps.: Em novembro de 2004 tivemos o privilégio de participar do MUSICANTO. Constatamos que um festival da canção que acontece numa cidade deliciosa como Santa Rosa só poderia ser o que é, digno de todos os elogios recebidos.
Carlos Gomes - compositorMaio de 2004
Para ler as crônicas anteriores, clique nos links abaixo10 - Nem tudo que reluz é ouro (2ª parte)
9 - Nem tudo que reluz é ouro (1ª parte)
8 - Salve o compositor popular (2ª parte)
7 - Salve o compositor popular (1ª parte)
6 - O que é ser diferente ou igual em música? (2ª parte)
5 - O que é ser diferente ou igual em música? (1ª parte)
4 - Nós e o Festival de Viña del Mar (2ª parte)
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