SALVE O COMPOSITOR POPULAR

(1ª parte)





A imortal Raquel de Queiroz partiu para o andar de cima há pouco tempo, mas nos deixou um legado de grandes obras literárias, contribuindo de forma definitiva para a formação de outros escritores, bem como para a construção da nossa brasilidade.  Para mim, sem dúvida nenhuma, é a escritora que melhor expressou o nosso cotidiano visto por um prisma nordestino. Recentemente um jornal republicou uma de suas crônicas intitulada “A última crônica”.       É dirigida,  acredito, àqueles que pensam que o ato de escrever nada mais é do que um dom divino:  basta ficar sentado, ocioso, esperando a inspiração vir que se consegue um bom texto.   Dirigida àqueles que acreditam que quem não é escritor, não adianta tentar escrever, porque o escritor já  nasce escritor.   Raquel nos mostra que, no caso dela, que é imortal (e no meu também, que sou mortal) a coisa não é bem assim.

Escolher a palavra que vai dar a dimensão exata do que se quer dizer é, na minha opinião, uma  tarefa das mais árduas. Mesmo que seja para escrever eu te amo.  Existem momentos em que, por maior que seja o empenho, estas três palavras não convencem a ninguém.   Pode ser até que quem as escreva esteja sendo sincero mas, se escolheu o momento errado, o clima errado, já era: não convence.   Eu te amo pode ser escrito de várias maneiras, mas haverá só uma delas que convencerá.  A que estará no “timing” e, ai sim,  as palavras transmitirão a emoção que pretendem transmitir.   Acredito que seja por esse motivo que, às vezes, não entendemos muito bem como é que determinadas letras de música viram verdadeiros “hits” na boca das pessoas.  E nos impressionemos com o poder da propaganda “boca-a-boca”.  E nos impressionamos ao ver o brilho nos  olhos de algumas pessoas refletindo uma confissão da mais clara auto-identificação com as palavras da canção, por mais singelas  e “despretenciosas” que possam parecer.

Essa capacidade e/ou sensibilidade que muitos possuem para captar um sentimento que é comum a muitos, associada a essa maneira que os mesmos encontram para  sintetizar este tipo de apelo,  constitui-se, na minha maneira de ver,  num exaustivo, porém, gratificante trabalho de tentativas incessantes com erros e acertos, mais erros e, ainda bem, muito mais acertos.  Rascunhos, rascunhos e mais rascunhos.  Correções, correções e mais correções (que me perdoem os informatizados,  mas ainda tenho muito prazer em pegar a caneta e sair rabiscando papéis – só digito o texto para o computador depois de pronto ou quase pronto).     E tem também o  juntar e rejuntar o texto escrito em folhas diversas, na frente, no verso.   Num folhear  de agenda atrás daquela “partezinha” do texto  que escrevi na rua e que dará um belo  “link” para aquelas duas frases que escrevi no almoço, no boteco, naquele guardanapo  (aliás, cadê o guardanapo???)   Enfim, após esta maratona, sorriso nos lábios, muito feliz, juntar tudo e, ainda meio acanhada, ir mostrar para o parceiro.   Aí o cara diz:  “pô, meu, num dá procê sequenciar primeiro pra depois me mostrar???    E aí lá vai você.... Querem saber de uma coisa: já que estamos falando de textos, vou deixar para concluir esta pequena crônica mais pra frente pois agora acabei de me lembrar  que tenho que escrever sobre algumas  coisinhas que estão vindo à minha na cabeça:  A listinha da feira. É isso aí.
 
 

IVÂNIA CATARINA

Janeiro de 2004
 



Para ler as crônicas anteriores, clique nos links abaixo
 

6 - O que é ser diferente ou igual em música? (2ª parte)

5 - O que é ser diferente ou igual em música? (1ª parte)

4 - Nós e o Festival de Viña del Mar (2ª parte)

3 - Nós e o Festival de Viña del Mar (1ª parte)

2 - O Susto (2ª parte)

1 - O Susto (1ª parte)