Só peru morre na véspera...
O Sr. Antônio, porteiro do prédio onde eu moro, abordou-me um certo dia tendo no rosto um ar que era misto de alegria e apreensão. Disse-me, no bom tom mineiro de Muzambinho, um bom dia um tanto quanto eufórico, diferente do habitual. Vendo-o desta forma, perguntei-lhe qual a razão para aquele bom dia tão animado e ele não se fez de rogado. Contou-me que o seu sobrinho, um homem de 34 anos, havia sofrido uma queda de uma altura de nove metros e que, após submeter-se a todos os exames necessários a uma situação como esta, ele, o sobrinho, terminou apenas com um band-aid num dos supercílios, estando, segundo o Sr. Antônio, prontinho para uma queda de uma altura maior. Dito isto, deu três soquinhos no balcão e ficou me encarando com aquele jeitinho de mineiro, desconfiado, tentando, acho eu, perceber em mim algum vestígio de incredulidade. Como um bom paulista que já se enveredou por muitos rincões mineiros, disfarcei bem... Como ele continuava a me olhar, manifestei solidariamente que compartilhava de sua alegria; que a mão de Deus é sábia e, para quebrar o clima, disse também que só peru morre na véspera...
Passadas algumas semanas, fomos informados da classificação de nossas músicas Nossas Mulheres (Carlos Gomes) e No Espelho do Camarim (Adão Quevedo e Carlos Gomes) para o Festival de Santa Rita do Jacutinga, MG. Preparamos os “trens”, escolhemos o caminho mais curto e menos exótico que foi via Bom Jardim de Minas, dispensando, assim, a velha Via Dutra que nos levaria, de passagem, até Barra do Piraí, até a maravilhosa Conservatória com toda a sua musicalidade e exotismo e, de lá, para o nosso destino.
O trecho da estrada entre Bom Jardim de Minas e Sta. Rita era de areia e cascalho. O carro escorregava feito quiabo, um pouco aqui, outro pouco ali, mas não fiquei preocupado, pois acabara de pegá-lo de uma revisão geral às vésperas da viagem e, também, por termos tempo hábil, poderíamos ir devagar. Porém, num dado momento, diante destas situações que dificilmente conseguimos explicar, em uma das curvas precisei do freio. O pé foi até o fundo e nada. Pisei e pisei e pisei numa seqüência rápida e ele funcionou abruptamente já em meio à curva. O carro derrapou na areia e foi dar de frente com um morrinho de uns 90 cm que, ainda bem, antecipava uma ribanceira. E, aí, aconteceu com a gente o inusitado: o carro, ao colidir contra o barranco, foi tombando em “slow-motion” . Foi virando, virando e nós ali, nos olhando... esperando. Sem idéias. Passada a aflição, refletindo com calma, diria que este movimento demorou algo em torno de uns 20 segundos até chegar na posição final: de lado e atravessado na pista. As nossas cabeças apontavam para o início da curva para quem viesse, na estrada, em sentido oposto. Estávamos virados de lado na contra-mão. Estávamos abobados e tentando dominar o pânico. Me dei conta de que estava seguro pelo cinto de segurança e, somente por isso, não despenquei do meu banco sobre a Ivaninha. Tinha a impressão de que ela queria me perguntar: ô Carlinhos, há quanto tempo você tem carta? Com cuidado para não cair sobre ela, olhei pela minha janela e vi como o céu, em qualquer ocasião da vida, é lindo. Baixei o vidro, me segurei como pude, soltei o cinto e comecei a sair do carro pela janela, quando pintou na área um caminhão. Novo susto. Felizmente, ele percebeu o acidente e conseguiu parar a tempo. Neste ínterim, outros carros também pararam e, conjuntamente, conseguimos colocar o carro na sua posição original e arrastá-lo para a mão correta além de sinalizarmos o local para evitar outros transtornos. Ficamos a pé.
Naquele momento, amei a telefonia celular. Bastava uns contatos com a seguradora e tudo, acreditava eu, se resolveria rapidamente. SÓ QUE NÃO HAVIA SERVIÇO DE TELEFONIA MÓVEL naquele trecho. Odiei a telefonia celular. Como o carro já estava danificado mesmo, aproveitei para dar umas pancadas com ele no celular. A Ivânia foi de carona até Sta. Rita procurar um telefone, tomar providências junto à seguradora, avisar o pessoal do festival que já estávamos na área, etc, etc, etc...
O fim da história teve um saldo bem legal. Ganhamos o festival com a canção Nossas Mulheres; ganhamos uma caricatura do cartunista Netto (veja a charge no botão “fotos” f13 no site e aproveite para visitar o Netto no endereço www.mapnet.eti.br/netto); ganhamos mais alguns amigos: O Anderson Terra, que é o homem do rapel, o Maurício que, dentre outras coisas, é um dos maiores festeiros cariocas e o Netto, é claro. Ah! Ganhamos, também, a alcunha de contadores de histórias, pois nenhum dos nossos amigos acreditou que um automóvel teria o desplante de tombar em “slow-motion”. Ainda bem que a Ivaninha estava junto, testemunhou e jamais deixaria que eu mentisse, sozinho...
Este acontecido fez com que aquele filme do Sr. Antônio e do seu sobrinho passasse pelos nossos olhos com outros ares. Aquela sua história passou a ter, para nós, toda a credibilidade de um Gepetto.
É isso aí, até a próxima.
Carlos Gomes
PS: Escrevi está crônica na estrada, indo em direção ao delicioso Festival da Canção de Goianá, MG. Aliás, eu ditava e a Ivaninha, meio a contra gosto, escrevia. Eu estava dirigindo. Queria contar mais detalhes desta história toda. Mas, como eu disse, ela estava meio rebelde, pois queria fazer a segunda coisa que ela mais gosta: DORMIR. A primeira é CANTAR.
Carlos Gomes - compositorAgosto de 2004
Para ler as crônicas anteriores, clique nos links abaixo
11 - Nem tudo que reluz é ouro (última parte)
10 - Nem tudo que reluz é ouro (2ª parte)
9 - Nem tudo que reluz é ouro (1ª parte)
8 - Salve o compositor popular (2ª parte)
7 - Salve o compositor popular (1ª parte)
6 - O que é ser diferente ou igual em música? (2ª parte)
5 - O que é ser diferente ou igual em música? (1ª parte)
4 - Nós e o Festival de Viña del Mar (2ª parte)
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