É bom termos um lugarzinho para podermos contar um pouco das nossas aventuras pelos Festivais do Brasil. Aliás, não só as nossas como as aventuras de alguns amigos que certamente tem um cadinho delas para contar. Normalmente, contamos os nossos “causos” quando nos encontramos na estrada, agora temos a oportunidade de contá-los quando nos encontramos, também, na net.O “causo” que eu escolhi para contar aconteceu em uma de nossas incursões pelo norte do país, se não me falha a memória (coisa que ultimamente tem acontecido com freqüência quando diz respeito a lembrar letra de música e nome de cidade) o nome da cidade é Altamira, no Pará.
Muito bem, após molhar as mãos, melhor dizendo, os dedos das mãos no gigante e exibido rio Xingu - Digo só os dedos das mãos pois, molhar mais coisas como os braços e as pernas, na ocasião, teria se tornado um ato de extrema coragem, pois os pescadores ou os homens que, na época, trabalhavam com o transporte de turistas tripudiavam sobre os nossos medos e falavam o tempo todo sobre cobras e peixes enormes que, quando próximos de parirem, ficam só espreitando, nas margens ou no meio do rio, pela distração de um ou outro para “nhec:” abocanhar, segundo os da terra, inteirinho, o fulano distraído - enfim, voltando ao tema, após molhar os dedos no rio Xingu, um barqueiro, nativo da região, um destes bravos homens que, aparentemente divertem-se com a cara de espanto que a gente faz quando nos colocam a par dos perigos do lugar, contou que logo ao fundarem Carajás, muitos trabalhadores, em função, basicamente, da dificuldade de locomoção, foram morar por lá, no meio da floresta, em uma “vilinha-cidade” construída pela empresa Vale do Rio Doce. “Vilinha-cidade” confortável, “com portaria e tudo” que só mesmo quem fosse “de convite” ou acompanhado “quas otoridades” poderiam entrar para visitar e/ou discutir negócios.
E vai a estória. Nos contou o homem da “voadeira” (aqui para nós: lancha) que uma das condições para que o “mundo” permitisse a instalação de uma empresa do porte da Vale ali no meio da “tão cuidada Amazônia” era a de que (fora a área que já tinha sido usada para a construção da “vilinha”) a flora e, principalmente, a fauna (e, quando ler de novo fauna, pense muito na Onça Pintada - assim escrito com letras maiúsculas mesmo - ) fossem preservadas sobre toda e qualquer situação. A violação deste tópico estaria sujeita a penas terríveis. Penas que seriam de altíssimos ônus para a empresa com acompanhamentos de esculhambações na mídia, extrema-unções, prisões e, segundo o barqueiro, “até pena de morte” (neste momento ele fez vários sinais que pareciam sinais de cruzes). E vai contando o barqueiro a sua estória.
Aconteceu que numa tarde, brincavam, no meio da “vilinha”, várias crianças, filhos dos mais diversos tipos de trabalhadores locais e num repente, num bote certeiro, uma Onça Pintada aparece, abocanha uma das crianças que, segundo contaram para ele, o barqueiro, foi, praticamente, partida ao meio pela bichana. No que o pai da criança se deu conta e isso aconteceu muito rápido ( segundo o que contaram para ele, o barqueiro), nada mais poderia ser feito para salvar aquela “criaturazinha” tão preciso tinha sido o ataque da onça. Mas, ainda assim, este pai no desespero, pegou o seu rifle para atirar na gatona e tirá-la de cima de seu filho. Fez mira, cuidando para não ferir, ainda mais, o menino. Quando ia puxar o gatilho, um grito: - LARGA ISTO. Era o pessoal do exército, “em cima do lance”, estava lá. Ordenaram que o pai do guri abaixasse a arma ou lhe dariam um tiro (o exército está por lá para garantir a segurança - segundo contaram para o barqueiro). E segue o barqueiro, vibrante, apaixonado na narrativa. E imitava o pessoal do exército que gritava: - Espanta a bicha! Faz a onça parar de comer o garoto! Atirem pro “arto”! Eu e a Ivânia (ela estava lá comigo. Ouvindo a mesma estória. Se não acreditarem em mim podem perguntar pra ela) a esta altura da história estávamos horrorizados. Como era possível preterir a onça à criança. Para as nossas cabeças isto era inconcebível.
O barqueiro percebia o nosso rubor e fazia ainda mais terror. Percebia que a estória dele mais o saculejo do barco já estava causando reviravolta em nosso estômago (isto no meio do rio). Percebia e se aproveitava para contar detalhes mínimos do estrago que a onça ia fazendo na criança. Não vou me atrever a contar estes detalhes aqui. Mas, para quem assistiu, pode relacionar a estória do barqueiro com o mais terrível do filme “Do Inferno” que fala sobre o Jack Estripador. Enfim, no coser dos ovos, e segundo o barqueiro, o exército conseguiu dar um “xô” na bichana que por não ter conseguido se alimentar em paz e nem tampouco levar carne fresca para os seus filhotes, rosnou que voltaria. Não voltou. Aliás, voltou, mas não conseguiu entrar.
Após esta tragédia, e isto viemos a saber depois, fizeram um quase-competente cercado na “vilinha-cidade” o que evitou outras carnificinas do gênero. O pai do garoto, segundo o barqueiro desequilibrou-se e deve, achamos nós, estar fazendo terapia até hoje. Por não ter sido apenas uma pessoa a contar-nos esta estória ficamos no assim-assim. Acreditando, não-acreditando. Numa futura incursão pelo norte tivemos algumas constatações que minimizaram um “tiquinho” a nossa incredulidade na estória do barqueiro. Mas isto conto numa próxima oportunidade.
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