O SUSTO

(segunda parte - final)
 
Pois é, continuávamos, eu e a Ivânia lá, na cidade de Altamira, no Pará. Ainda impressionadíssimos com as estórias dos homens da terra que, diga-se de passagem, não eram poucas.

Graças à visão de toras enormes de árvores seculares descendo o rio Xingu amarradas a barcaças, bem como às tantas outras visões naturais e verdadeiramente maravilhosas da região, conseguimos nos refazer do enjôo da história que o barqueiro nos contou sobre a Onça Pintada de Carajás e, gradualmente, fomos voltando para a nossa habitual concentração para o principal motivo de nossa ida a Altamira: Participar do Festival da Canção.

O festival foi lindo. O resultado do festival melhor ainda (pelo menos pra nós). Foi o resultado mais inusitado de nossas andanças (um dos). Concorríamos ali com compositores maravilhosos de várias cidades. A maioria era de Belém, (este papo não é só para valorizar o nosso resultado – valoriza – mas, independentemente disto, os compositores que estavam por lá são realmente maravilhosos. Quem os conhece sabe bem disto) dentre os compositores estava lá Pedrinho Calado. Refiro-me, especialmente ao Pedrinho, porque ele foi quem fez uma das mais lindas melodias que temos em nosso repertório, para uma das letras de Ivânia Catarina (Ausência).

Veja como foi o resultado do festival: Além de 1º. e 2º. Lugares. Recebemos, também os prêmios de melhor intérprete para a Catarina. Melhor arranjo pra a nossa música que ficou em primeiro lugar. Melhor letra para a nossa música que ficou em 2º.; e melhor do público (não me lembro qual das músicas ficou com este prêmio – eu disse no início que minha memória já não é mais a mesma). O troféu de melhor arranjo fizemos questão de deixar de lembrança do festival para o nosso mais recente ídolo: Pedrinho Calado (3º. e 4º. Lugares. É mole?). A tempo: Nós o presenteamos de coração com o troféu de melhor arranjo. Só com o troféu. O din-din não. Sabe como é... Este nós não podíamos dar de jeito nenhum.   O lugar era longínquo, muitos quilômetros de casa.. despesas... Saudade...Um beijão no coração dos nossos amigos Paraenses.

Voltamos para casa felizes da vida. (Porque será, né???). Mas estará enganado aquele que pensar que toda aquela adrenalina gerada pela premiação foi suficiente para nos fazer esquecer o “causo” que o barqueiro nos contou sobre Onça Pintada comendo criança, cerca em Carajás, cobras d’água e peixes antropófagos que habitam o rio Xingu. Após o festival, continuamos a conversar com outros habitantes ribeirinhos, tanto do Xingu, quanto do Tocantins e do Amazonas, pessoas realmente simples na essência, índios ainda não tão urbanizados que nos surpreendiam contando suas estórias sobre peixes estranhos, que souberam de um acontecido que envolveu Onças Pintadas em Carajás que...(de novo). Uma estória nova sobre a comilança de tartarugas e, neste ponto, eu e a Ivaninha, caipiras da cidade grande, horrorizados (outra vez). - Onde já se viu, sô, comer um bichinho que vive mais de cem anos? - bem esta já é uma estória pra contar em outra oportunidade.

O fato é que em uma nova incursão pelo norte do País (procuramos fazer isto de dois em dois anos – amplia os nossos horizontes fraterno-musicais além de nos fortalecer na consciência de que, se deixarem, a nossa música encontra espaço para ser exibida em qualquer canto do Brasil e digo mais: até fora dele, pois, sem falsa modéstia, já representamos o Brasil no Festival Internacional da Canção de Viña Del Mar , no Chile e, lá, conquistamos a galera e o troféu “La Gaviota de Plata” – chique, não é mesmo?? ).

Então, como vinha narrando, nesta nossa nova incursão fomos para a cidade de Itacoatiara, no Estado do Amazonas ( a Amazon Sat mostrou - era a segunda vez que estávamos indo para lá e, pela segunda vez, tivemos a felicidade de ganharmos o festival). No aeroporto, prontos para embarcar de volta para casa, fiz uma brincadeira com Ivânia dizendo que já que o vôo faria uma escala em Carajás, poderíamos descer e ficar por lá alguns dias para enriquecermos um pouco mais os nossos conhecimentos sobre o patrimônio ecológico brasileiro. Rimos e nos lembramos do quanto nos impressionou a história do barqueiro de Altamira. Certamente era um conto. O cara queria nos impressionar (e impressionou mesmo!). Decolamos.

Degustamos o “menu”. Cochilamos. Pousamos em Carajás. Olhávamos em volta da pista e o que víamos, respeitando as limitações panorâmicas das janelinhas do avião, era só mato. Aí pintaram aqueles papos oportunos para a ocasião (principalmente para alguém como eu, que sofre muito cada vez que tem que voar): “ - já pensou se o avião cair no meio desta mata toda? É, acho que num dá pra durar nenhum dia. Os bichos comem a gente. É, mas não se pode matar bicho por aqui, nem pra comer, eu acho, uai sô, se lembra daquela história do barqueiro? Foi aqui, uai! Carajás! – Pô, Ivaninha, vamos mudar de assunto. - O barqueiro só quis assustar a gente, bobo (mineiro chama muito a gente de bobo). – Realmente onde já se viu: preferir salvar uma onça gulosa ao invés de uma criança? - Só na cabeça daquele barqueiro mesmo...”

Dali a pouco o tradicional comunicado do comissário. “Atenção, senhores passageiros....” e, mais depois ainda, o comandante manda os tripulantes se prepararem que o avião está pronto para a decolagem. Turbinas a mil. Nestes momentos sempre simulo uma leitura básica para disfarçar meu pânico (me sinto muito agoniado com pousos e decolagens). Lá vai o 737. De repente, uma brusca freada. O livro que simulava ler escapuliu da minha mão e foi bater de novo lá em Manaus. Se não estivesse usando cinto de segurança, provavelmente os meus caninos não mais colaborariam comigo num churrasco de fim de semana na chácara. Burburinho geral. O que foi? O que aconteceu? Será bomba? Será o Beira-Mar seqüestrando o avião? Guerrilha? Depois de alguns minutos de agonia vem a voz brincalhona do comandante:
“- Senhores passageiros e tripulantes, espero que vocês nos perdoem pelo transtorno. Fomos forçados a abortar a decolagem, pois durante a mesma, uma Onça se lançou na travessia da pista. Mas graças a Deus, conseguimos evitar o pior”. Concluo: pior para nós, porque a onça pintada em Carajás ( segundo aquele barqueiro, lembra? ) está assegurada por tratados comerciais. Nós não. E, diante do que já nos tinham contado, se feríssemos a onça, provavelmente, estaríamos detidos por lá até hoje. Sei lá, talvez respondendo por tentativa de homicídio ou intenção de traficar a pele destas bichanas que, diga-se de passagem são realmente muito fortes e, de quebra, lindas demais.

É isso aí, vocês que forem lá para o norte, dêem crédito às histórias dos barqueiros para não se surpreenderem futuramente.

Carlos Gomes
Compositor
carlos@ivaniacatarina.com.br

         Janeiro de 2003


 
 

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