Um hotel que perdia em estrelas mas ganhava em hospitalidade - divagações sobre o tema.









Neste festival, edição de número XX em 2004,  íamos com a inspiração de férias anuais. Com muita alegria, com a sensação de rever amigos, paisagens. Com a impressão de estarmos correndo por fora, pois já havíamos tido o primeiro lugar, letra e intérprete em 1998, com a canção "Diário de uma flor" e, em 2000, o primeiro lugar e intérprete com a canção "Grata Visão", ambas de Ivânia Catarina & Carlos Gomes.

Implicitamente,  bem sabem os  participantes  dos festivais, que alguns organizadores não hesitam em não premiarem concorrentes que já foram vencedores dos seus festivais e, algumas vezes, até concorrentes que já foram vencedores de outros festivais e, ainda, às vezes, até concorrentes que participam com regularidade destes eventos. Tudo isto independendo do trabalho apresentado ser ou não de boa qualidade.  Neste festival, o Festival da Canção de Itacoatiara, AM, especificamente e, isto para mim era claro e concreto, nunca foi a sua filosofia visto já termos sido vencedores de duas de suas edições.   Aliás, sempre me pareceu que, em se tratando de um concurso, este festival sempre priorizou o esforço produtivo e qualitativo na construção musical, independentemente de quem as compõe.   Mais um detalhe interessante:  Todo ano o corpo de jurados é renovado.

Antes de falar sobre a nossa estadia no afetuoso hotel sem estrelas vou, neste ponto, aproveitar este link do  "não premiar o compositor que já foi vencedor"  para frisar um comentário de um baterista muito competente, simpaticíssimo, que admiro e respeito muito e que é um dos responsáveis pela produção de mais um desses festivais calorosos que acontece no Brasil.

Em certa ocasião, entre uma e outra manifestação que faço, sempre que posso, acerca da possibilidade de abertura de espaço para shows aos músicos que fazem os festivais,  que os festivais da canção representam um dos últimos redutos da  resistência cultural musical,  que são como estímulo à produção musical com motivos brasileiros, que são como vitrines para essa galerinha que não encontra dial com referência à música brasileira  e  sequer acesso às nossas raízes e, enfim, uma série de questões já tão debatidas nacionalmente, etc, etc, etc...  pois bem, no meio desta conversa toda, este produtor, dentre outras coisas, fez um comentário que me deixou pasmo. Seu comentário foi de que a sua filosofia era deixar de lado alguns participantes de festivais  que alimentavam a idéia de que os festivais teriam a obrigatoriedade de classificá-los na triagem e premiá-los, como se estes eventos fossem para eles um emprego garantido e com carteira assinada (palavras dele).

Num primeiro momento, além de quase ter uma indigestão (estava almoçando), passei a  entender o porquê de na edição anterior do festival vários compositores, acredito eu, sequer tiveram as suas músicas devidamente ouvidas na triagem, fato que gerou uma série de telefonemas para a organização questionando o que havia acontecido.   A mim e a vários outros concorrentes transpareceu a idéia de que deram uma boa "limada", num grupo de compositores que, como eu, estamos em quase todos.   Como consequência a secretaria de cultura que, me parece, é a responsável pela contratação deste produtor recebeu inúmeros telefonemas de protesto contra esta discriminação de nomes e que a triagem deveria respeitar critérios musicais e não posições pessoais, etc, etc, etc...   Com muito blá, blá, blá,  parece que na edição mais recente do evento este quesito de ordem pessoal "saiu" de pauta.  O público sempre procura os participantes para comentar a sua admiração e/ou as suas preferências e o que pude apurar foi que o comentário geral foi de que sentiram, na edição anterior, a falta de alguns participantes.

Agora, o que vale deixar registrado para esse nosso amigo produtor é que o músico ou o compositor ou o participante não tem e nunca teve a pretensão de ter carteira assinada num festival, pois ele  vai para um evento deste naipe apostando em primeiro lugar na qualidade do conjunto da apresentação de seu trabalho e, em segundo lugar, apostando na competência e idoneidade do júri e, principalmente, na lisura e racionalidade da organização. Vale deixar registrado que o concorrente incorre em riscos e despesas e que na maioria das vezes as  "ajudas de custo"  mal cobrem as passagens.  O  concorrente corre entre tantas coisas os seguintes riscos:

1. Sabe que pode "tomar um chumbo na asa" (no jargão festivaleiro "tomar um chumbo na asa"  é quando a música não recebe nenhuma premiação);

2.  No caso de "tomar um  chumbo na asa" o resultado é que, literalmente, o concorrente pagou para participar do evento, pois como já disse, as "ajudas de custo" (quando tem)  mal cobrem as despesas de viagens;

3. Sabe que pode encontrar um júri que opta por julgar pelas predileções por pessoas em detrimento dos critérios  de predileções musicais  e,

4. Corre o risco de encontrar uma organização ou um organizador que, independentemente do trabalho, não premia porque acha que compositores premiados em outros eventos não merecem mais ser premiados.

Colocados todos estes riscos para o concorrente o que é que sobra de risco para quem foi contratado como  produtor do evento???   Evidentemente, nenhum risco.  Portanto,  pelo menos para mim, fica claro que quem tem o festival como cabide ou se preferir como emprego com carteira assinada é o produtor contratado que fez para mim este comentário tão disparatado visto que, além do poder total que lhe foi delegado ao ponto de escolher quem ele quer ou não, dentro da sua filosofia, que participe e/ou seja premiado no evento tem, também, a segurança de ter as suas despesas totalmente cobertas.  Tem, também,  a segurança de, antes ou depois, receber a remuneração pelo seu trabalho na produção do evento, enfim, não corre os riscos que os participantes correm.

Acho que quem  o contratou deveria pensar para ele a mesma coisa que ele pensa em relação aos participantes, ou seja,  a cada edição do evento deveria dar oportunidades a outros produtores.   Certamente haveria várias pessoas com competência similar, com idéias inovadoras e dispostas a executar com muito afinco tal tarefa.  Além do que, gostaria de ver qual seria a sua reação quando se visse alijado de fazer uma das coisas que, provavelmente,  muito aprecia que é o trabalho com a difusão cultural, o trabalho com a música.

Há que se ter menos ranços e mais lisuras, menos preocupações com quem ganha ou não e centrar mais os objetivos no esforço da produção da arte pela arte. Centrar os objetivos no respeito aos que querem  produzir  sempre o seu melhor, como, tenho certeza,  é o caso deste produtor que, tanto de mim, quanto de todos que o conhecem, tem o maior  respeito e admiração não só pela competência musical mas, principalmente pela sua franqueza em manifestar seus pensamentos. Apesar de alguns destes pensamentos, pelo menos para mim,  serem muito feios e unilaterais.

Se alguns produtores contratados alimentam a idéia de que os participantes sejam cíclicos  que eles próprios também o sejam.  E que façam-se cíclicos também o corpo de jurados (como é o caso de Itacoatiara), o corpo da triagem,   para que o festival não fique com a cara de alguns deles que,  em alguns casos, há até jurado julgando música de concorrentes que empresariam...Bom, aí já começa outra história (ou será estória????).

Vamos fazer o seguinte: vou tomar um fôlego, um chazinho verde e na sequência dou continuidade nesta história do hotel sem estrelas.

Até breve.
 
 

Carlos Gomes - compositor

         Outubro de 2004


 
 



Para ler as crônicas anteriores, clique nos links abaixo

12 - Só peru morre na véspera

11 - Nem tudo que reluz é ouro (última parte)

10 - Nem tudo que reluz é ouro (2ª parte)

9 - Nem tudo que reluz é ouro (1ª parte)

8 - Salve o compositor popular (2ª parte)

7 - Salve o compositor popular (1ª parte)

6 - O que é ser diferente ou igual em música? (2ª parte)

5 - O que é ser diferente ou igual em música? (1ª parte)

4 - Nós e o Festival de Viña del Mar (2ª parte)

3 - Nós e o Festival de Viña del Mar (1ª parte)

2 - O Susto (2ª parte)

1 - O Susto (1ª parte)