Um hotel que perdia em estrelas mas ganhava em hospitalidade - a cloaca.





Dormíamos num apartamento do 2º andar, quarto 27, na parte de baixo de um beliche. Na correria da 1ª noite mal percebemos o quarto.   No 2º dia, descansados,  quase que totalmente recuperados das mazelas deste tipo longínquo de viagem, notamos na cama superior do beliche, umas bolinhas que mais pareciam cocô de cabra. Descartamos logo a idéia de que alguma cabra havia feito cocô no beliche, pois além de algo que se parecia com uma estreitíssima escada em espiral que dava acesso ao nosso andar, não havia escada para subir ao beliche superior e acho que uma cabra não conseguiria dar um salto tão alto assim para poder chegar até lá encima.   Pela janela: impossível. A parede era lisa e ninguém em sã consciência colocaria uma escada ali só para satisfazer os caprichos de uma cabra que quisesse evacuar na parte superior de um beliche.  Há em Itacoatiara outros locais mais adequados para uma cabra evacuar.
 
Percebemos então que aquelas pequenas bolinhas vinham do forro.   Fomos sondar.   Ouvimos um farfalhar de asas.  Não, não era um pássaro.  Um beija-flor???  Não, também não era um beija-flor.  O local era muito escuro. Impróprio para tal beleza.  Vimos então algo que lembrava um fio de piaçava. Uma antena que, num primeiro momento até se poderia dizer que era de uma televisão, mas não era.  Era sim um par de antenas do inseto que repudio como o mais nojento do planeta.   Mais nojento e, dizem, mais antigo.  Quase caí da cadeira de susto.  Parei de olhar e pensei:  se esse cocozão que parece de cabra tá saindo da "cloaca" de uma barata, provavelmente o tamanho deste "animal" não será muito diferente do tamanho de uma cabra.

Montamos um esquema tático de vigília alternada:  enquanto eu vigiava a Ivaninha dormia. Depois, no revezamento: a Ivaninha dormia e eu vigiava (dormir é a segunda coisa que ela mais gosta de fazer, a primeira é cantar). Por falar em cantar, vencidas as alternâncias das vigílias, fomos com a nossa canção para a final do festival.  Cantamos.  A nossa alma se inflamou com a canção, o público captou e energizou junto. Foi lindo.   A Ivaninha ficou com o prêmio de melhor intérprete e a nossa canção com o 3º Lugar. Todo o resultado do evento nos pareceu muito coerente.  Fizemos novos amigos.  Revimos os antigos.  E armazenamos mais imagens lindas em nossos corações.   A canção que venceu o festival venceu com todos os méritos, levou também o prêmio de melhor letra e melhor arranjo.  Estivesse eu no júri e o resultado não seria diferente.

Voltamos ao hotel.  Até aquele momento além do lançamento das bolinhas, esses "animais" não nos fizeram nenhuma afronta, porém antes que eles se sentissem ultrajados por termos  descoberto o seu refúgio "secreto" e quisessem estraçalhar com as nossas coisas, caímos na estrada e fomos dar continuidade em nossa proposta.  Fomos apreciar as distrações de Manaus.  E de lá, fomos participar de uma Mostra Internacional de Música em Belém, PA e, aí, pirei de vez quando dei com meus olhos na Baía do Guajará. Todas as tardes, no boulevard, pertinho do Ver-o-Peso, degustando um chopinho, criando barriga. Tendo uma porção de amendoim ou azeitona como tira-gosto. Vendo a chuva caindo aqui em um dia... ou acolá noutro dia... Concordo com quem sai por aí dizendo que Deus é brasileiro.
 
Fica nesta crônica registrado o nosso eterno carinho e respeito por todos que participaram na organização do Festival da Canção de Itacoatiara que, a mim me parece, sempre se primou pela lisura e idoneidade colocando a música acima das diferenças e ideologias individuais, bem como a sua grandeza que só vi igual no Festival Internacional da Canção de Viña Del Mar com seus 10 dias ininterruptos de shows, festival da canção e muita festa e, é claro, o nosso carinho a todos os novos e velhos amigos que se aconchegaram ainda mais em nossos corações.  Como sou grato  à deusa música.

 
Abraços a todos.
 
 
 

Carlos Gomes - compositor

         Outubro de 2004


 
 



Para ler as crônicas anteriores, clique nos links abaixo

12 - Um hotel que perdia em estrelas mas ganhava em hospitalidade - divagações sobre o tema

12 - Só peru morre na véspera

11 - Nem tudo que reluz é ouro (última parte)

10 - Nem tudo que reluz é ouro (2ª parte)

9 - Nem tudo que reluz é ouro (1ª parte)

8 - Salve o compositor popular (2ª parte)

7 - Salve o compositor popular (1ª parte)

6 - O que é ser diferente ou igual em música? (2ª parte)

5 - O que é ser diferente ou igual em música? (1ª parte)

4 - Nós e o Festival de Viña del Mar (2ª parte)

3 - Nós e o Festival de Viña del Mar (1ª parte)

2 - O Susto (2ª parte)

1 - O Susto (1ª parte)