NÓS E O FESTIVAL DE VIÑA DEL MAR
Em 2001 fomos convidados para representar o Brasil no Festival Internacional de La Cancion de Viña Del Mar, no Chile. Imaginem a nossa alegria e expectativa! Vocês não fazem idéia de como custou a chegar o dia da viagem!
Pela proximidade dos países não nos preocupamos em aprender um pouco mais profundamente o espanhol. Assistíamos TV espanhola por assinatura e achávamos que não seria tão complicado nos fazer entender por lá “A gente se vira. Afinal Português e espanhol tem as mesmas raízes.É tudo muito parecido.” E assim, falando um “portunhol” bem canhestro, fomos articulando nossa ida. Lá pelo lado deles houve até a preocupação de colocar intérprete para falar conosco mas, ainda assim, preferimos a mistura das línguas.
Ao contrário dos festivais brasileiros que, normalmente, ocorrem em um final de semana, o Festival de Viña tem a duração de 10 dias, portanto, teríamos todo esse tempo para sairmos de lá falando espanhol de trás para a frente.
E lá fomos, Carlos e eu, felizes da vida. Tirando fotos até das nuvens -é para registro - dizia ele. Nas cordilheiras o avião aparentava voar tão baixo que tinha-se a impressão de que os Andes acabariam por nos tocar. No mês de fevereiro, eles estão com neve somente nos picos sobre uma imensidão de vales verdinhos. Um belo cenário, para se lembrar com a cabecinha no travesseiro daqui a algumas décadas.
Ao chegarmos ao aeroporto de Santiago (e isso ainda era de manhã), fomos recepcionados por tantos “reporteros” que vendo desembarcar os representantes do Brasil no Festival, queriam já saber qual a nossa expectativa para o evento, visto, recentemente, dois artistas brasileiros não terem sido bem recebidos pelo “El Muentro” (público que lota a Quinta Vergara no evento) cujo burburinho, fez com que parassem o show antes da metade. E nós respondíamos que a expectativa era grande e blá, blá, blá...que o importante era poder mostrar o trabalho além das nossas fronteiras e blá,blá blá.... Alguns indagavam de onde éramos ao que respondíamos orgulhosamente com um português bem claro: “Representamos Minas Gerais e São Paulo, Brasil”. E pipocavam vários flashes na nossa carinha amassada ainda deslumbrada com o assédio.
De Santiago seguimos numa van diretamente para Viña que fica a aproximadamente duas horas. O motorista fazia o papel de guia, contente em apresentar para nós os pontos interessantes do percurso (e tinha muitos). Falava sobre a sua paixão pelo futebol brasileiro e, como não podia deixar de ser, citou o Corinthians como um dos maiores times do mundo e, com isso, nem precisa dizer, conquistou imediatamente a simpatia do Carlos Gomes.
Enfim, para o nosso deslumbre, nos vimos no ponto mais alto da cidade de Val Paraíso, de onde podíamos avistá-la integralmente, banhada pelo Pacífico e em seguida, com todo o seu “glamour”, Viña Del Mar”.
O hotel, tradicional na hospedagem dos artistas que participam do Festival, localizava-se bem no coração de Viña, próximo do mar. Havia gente amontoada nas ruas em volta vindas em excursões de vários lugares. Centenas de adolescentes faziam plantão ao redor. Todos no frisson de ver, de poder tocar em um artista. Tirar fotos. Pegar um autógrafo. Tudo ma-ra-vi-lhooooo-so. Cada vez que saía ou chegava uma van era uma gritaria geral. Não importava quem estivesse dentro. E era assim o dia inteiro. Já a imprensa, do lado de dentro do hotel, juntamente com a organização do evento, ficava ali na captura de matérias para os seus respectivos jornais, revistas, tvs, etc.
Naquela primeira manhã houve uma coletiva de imprensa para apresentação dos concorrentes. Coletiva de imprensa! Chique, não é mesmo??? Havia um respeito muito grande por parte da imprensa a todos os participantes mas, em especial, ao americano Jonathan Fuzezzy, cuja música que ele interpretaria “You can change the world” era do mesmo compositor da canção “Let me try again”. Canção que concorreu em uma das edições em Viña e não chegou a ir para a final, mas foi gravada, em seguida, por Frank Sinatra (o destino não é um moleque brincalhão?). Após todos estes agitos fomos liberados, por algumas horas, para banho, almoço e coisa e tal...
Na época, eu e o Carlos estávamos com a mania de tomar suco de melancia, mas até aquele momento não tínhamos conseguido beber o bendito suco porque o nosso vocabulário em “portunhol” não era tão amplo. Depois de muitas cambalhotas, muitos desenhos, muitas mímicas e muitos risos depois, o garçom fez uma cara de eureka e disse: "Ah, jugo de sandia!." Vibramos. Porém, mais no coração do que no paladar,sentimos que suco de melancia de lá não era o mesmo que o daqui, mas valeu.
Dia seguinte, passagem de som. E era passagem de som mesmo. Não era ensaio no palco não. Tudo cronometrado. Músicos sincronizadíssimos. O som era o paraíso. Impecável. E falando em som, alguém estava tentando nos dizer que quem estava fazendo a sonorização era um grupo de brasileiros. Fomos então correndo ver quem eram os caras do som. E, vocês não vão acreditar. Para a nossa grata surpresa, descobrimos que o pessoal do som eram os mui queridos amigos que fazem também a sonorização do maior festival brasileiro: O FAMA, em Alegre no Espírito Santo. Não acreditamos. Isto é pra ver como tem brasileiro fazendo bonito por aí afora e a gente só fica sabendo por acaso. Bom, nem precisa dizer que quando vimos os caras foi um tal de “nós-dez-falando-ao-mesmo-tempo”. Como é bom falar a língua de casa e, principalmente, as suas gírias e palavrões quando estamos descontraídos.
Bom, a gente tem muita coisa pra falar, mas não dá pra falar tudo de uma vez. Numa próxima oportunidade eu conto mais sobre o que é enfrentar “El Muentro da Quinta Vergara”.
Ivânia Catarina
Cantora /Compositora /Pedagoga
Maio de 2003
Clique aqui para retornar à crônica do mês
Para ler as crônicas anteriores, clique nos links abaixo
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|